Por uma (crítica da) Economia Política…

Verlane Aragão Santos1

Há uma questão, exposta no debate acadêmico e público no subcampo da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (EPC), que tem promovido desacordos e falta de entendimentos comuns: o que significa a expressão Economia Política, distinguindo assim a análise desenvolvida a partir de um conjunto de pesquisadoras e pesquisadores, autodeclarada como crítica em relação ao pensamento comunicacional vigente? Decerto o desenvolvimento da EPC fora2 e dentro do Brasil3 tem se traduzido num quadro bastante heterogêneo, considerando as origens, formação e campos de atuação. Poderemos a partir daí observar diferentes áreas de conhecimento, e consequentemente aportes epistemológicos e metodológicos, porém a ideia de uma economia política, como de uma crítica da economia política, atende a um percurso próprio que precisa ser recuperado e problematizado.

A expressão Economia Política conforma na tradição da ciência econômica, onde é constituída, um conjunto ampliado de autores e perspectivas que vai de  Antoine de Montchrestien, quando em sua obra de 1615, “Tratado de Economia Política”, enuncia primeiramente a expressão, passando por Adam Smith e David Ricardo, proeminentes economistas políticos ingleses, pelo próprio Marx, chegando a Alfred Marshall e Willian Jevons, economistas neoclássicos do final do século XIX. Importante salientar que ao denominar a jovem ciência, a partir da “Riqueza das Nações”, de 1776 de Smith, e definir a preocupação com a riqueza material, a noção de economia política, correspondente a cada uma das obras referidas e das abordagens próprias dentro da ciência econômica, compõe uma dada e particular concepção.

Tomando como referência a obra de Smith, partamos de sua base ontológica. O “homem econômico” é este ethos que caracterizará o comportamento de todos os agentes econômicos (independente de classe, gênero e raça) no interior das relações mercantis. Individualistas, racionais, maximizadores de interesse. Parafraseando Smith (1996), ao buscar o próprio interesse, o lucro, o indivíduo [leia-se o capitalista] cria riqueza para toda a sociedade. Os vícios privados convertem-se em benefícios públicos, para lembrar a “Fábula das Abelhas” de Mandeville. Os filósofos éticos do século XVIII, assim, propunham o casamento entre os “sentimentos morais” e a riqueza material, dispensando os homens do Velho Mundo de terem que responder pelo pecado da usura, questionável nos padrões da moral deontológica escolástica, a ser superada pelo projeto de modernidade em construção.

A obra de Marx propõe novas preocupações, redesenhando os objetos da nova ciência propostos por Smith e seus contemporâneos. O que Marx realizará, primeiro na “Contribuição à Crítica da Economia Política”, de 1859, e depois em “O Capital”, de 1867, é incorporar a sistematização da atividade econômica já realizada, entre produção, distribuição e consumo da riqueza social, afirmando a não dissociação entre essas etapas; e a partir do empirismo de Smith e o método dedutivo de Ricardo propor um método alternativo, o denominado materialismo histórico e dialético, absorvido a partir das contribuições da filosofia alemã, especialmente de Hegel e Feuerbach. Neste ponto, transfigura a economia política de sua época, ou seja, a partir de sua crítica, apontando que o objeto privilegiado da ciência econômica seriam as relações sociais de produção, relações de exploração, ou seja, relações de poder, fundadas na propriedade privada (tem-se aqui a terceira fonte do pensamento de Marx, segundo Lênin (1913), o socialismo francês), na forma de trabalho assalariado, entendidas a partir da totalidade social, de sua constituição no tempo e no espaço – caráter histórico – e de suas contradições (LEFEBVRE, 1975).

O sentido de totalidade não deixava escapar a Marx as dimensões constitutivas das manifestações humanas; seus aspectos objetivos e subjetivos; da organização econômica à sistematização e aplicação das leis. Incorporou fatores extra-econômicos na sua análise, quando apontou o papel da violência imposta na defesa da propriedade e no processo de expropriação na fase inicial da acumulação capitalista ou mesmo quando trata da regulação dos salários. Como insiste Isaak Rubin, Marx introduz a sociologia na análise econômica. Suas categorias são extraídas da própria realidade. A classe trabalhadora, por conseguinte, e diferentemente da concepção liberal, deve ser observada em sua configuração concreta.

Isso não provinha de uma concepção ideal inicial, pois Marx não era um idealista, mas da apreensão da realidade posta, de suas complexidades, de suas diversas dimensões, no contexto de desenvolvimento da divisão social do trabalho, intensificado no âmbito do capitalismo. Marx ao definir o caráter social e coletivo do processo de criação da riqueza e apontar a contradição expressa na apropriação privada dessa mesma riqueza, requalifica o termo economia política. Não é gratuito o fato de que a despeito das obras dos neoclássicos ainda trazerem a expressão Economia Política, a teoria econômica hegemônica dispensará a qualificação política e adotará somente Economia para designar a ciência da riqueza.

Nesses termos, é comum observar na atualidade o uso da expressão Economia Política para abarcar, no sentido mais amplo, o conjunto da produção intelectual e acadêmica de caráter heterodoxo, ou seja, em oposição ao pensamento ortodoxo, liberal, como no sentido mais restrito referindo-se ao pensamento marxiano. Se quisermos ser mais precisos, podemos lançar mão da própria expressão enunciada por Marx, já que o que ele propunha fazer e fez foi uma crítica da economia política, apropriação do pensamento econômico de seu tempo, realizando a derivação das categorias burguesas e fazendo a crítica, como ocorre com a teoria do valor trabalho de Smith e Ricardo, permitindo incorporá-la como base para a sua teoria da mais-valia e ao observar a não validade dos pressupostos e suas implicações na obra desses autores, ao mesmo tempo apontar que se traduziam, segundo ele próprio, na legitimação do capitalismo, identificando assim o caráter ideológico da ciência econômica.

Com o acima posto, gostaria para finalizar essas anotações fazer duas observações. Primeiro: espero que já tenha deixado exposto e argumentado que “economia política” não corresponde à expressão “economia e política”, onde os termos aparecem em complementariedade. Não é uma análise econômica da política, tão pouco uma análise política da economia. A economia política pressupõe a incorporação de um método próprio e de categorias conceituais que nas pesquisas devem ser postos à prova resguardando, como já observado, a busca de contemplar a complexidade dos fenômenos sociais.

A segunda observação, que é muito cara às/aos marxistas que buscam garantir o rigor conceitual e metodológico, a partir de Marx, é a crítica lançada por fontes de todo tipo aos estudos marxistas, de que estes recaem no economicismo. Bem, há duas frentes de ataque já historicamente conhecidas e consagradas. A primeira que com pertinência pode ser feita em relação ao chamado marxismo vulgar, que usualmente apresenta uma análise materialista mecanicista, do tipo determinista causal direto. Inclusive é uma crítica endereçada ao marxismo pelo pensamento conservador4, e não só este obviamente, no intuito de desqualificá-lo, reduzindo-o ao que ele busca fugir. Há outra, que se baseia muito mais no desconhecimento de que economicismo é uma crítica realizada pelo próprio pensamento marxista e crítico em geral ao pensamento neoclássico, liberal, utilitarista, cuja referência básica é o pensamento dos economistas políticos burgueses do final do século XVIII e início do XIX, sem, contudo, apresentar a mesma sofisticação encontrada por Marx. E assim, voltamos a estes. Muito possivelmente para nos lembrar que o que propomos quando afirmamos trabalhar a partir da (crítica) da economia política é envidar todos os esforços para apreender a realidade, despi-la de toda névoa ideológica (inclusive no âmbito da ciência) e transformá-la na direção de uma outra sociedade, onde as opressões de toda ordem sejam superadas.

Notas

1 Professora do Departamento de Economia e dos Programas de Pós-Graduação em Economia (Mestrado Profissional) e em Comunicação da UFS. Doutora em Desenvolvimento Econômico pela UFPR. Vice-líder do grupo de pesquisa OBSCOM/CEPOS e recém-eleita Vice-presidente da ULEPICC-Brasil.

2 Em nível internacional, vide WASCO (2005).

3 No caso brasileiro, ampliado para a América Latina, vide AZEVEDO, SANTOS & MOTA (2016).

4 Um exemplo que expõe o ataque frontal do conservadorismo ao marxismo: https://www.integralismo.org.br/doutrina/o-economicismo-e-o-marxismo-difuso/. Acesso em 22/11/2020.

Referências:

AZEVEDO, Júlio; SANTOS, Anderson & MOTA, Joanne. (2016). “O avanço conceitual do subcampo da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura a partir da Revista EPTIC”. In.: Revista Comunicação Midiática. Vol. 11, n. 1, pp. 194-208. Disponível em: https://www2.faac.unesp.br/comunicacaomidiatica/index.php/CM/article/view/113.

LEFEBVRE, Henri. (1975). Lógica Formal e Lógica Dialética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

LENINI, Vladimir. As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1913/03/tresfont.htm.

MARX, Karl. (1996). O Capital. Crítica da Economia Política. São Paulo: Nova Cultural.

_____. Contribuição para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Edições Mandacaru.

SMITH, Adam. (1996). A Riqueza das Nações. Investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural.

WASCO, Janet. (2005). “Studying the political economy of media and information”. In.: Comunicação e Sociedade. Vol. 7, pp. 25-48. Disponível em: https://revistacomsoc.pt/index.php/revistacomsoc/article/view/1345/1327.

Não criemos na EPC uma dicotomia entre pesquisas empíricas e teóricas!

Anderson Santos*

Com as atividades das Rodas de Leitura em EPC, promovidas pela Ulepicc-Brasil (capítulo Brasil da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura), mas também com conversas em outros espaços de pesquisa, uma coisa vem me preocupando bastante, ainda que não seja algo novo: uma falsa dicotomia entre a pesquisa com maior base teórica e aquela mais empírica (ou que considera um histórico de atuação de bases populares).

Filiação teórico-metodológica

Apresento aqui este manifesto enquanto alguém cuja maior parte da produção acadêmica é a partir de análises empíricas. Estudo a apropriação midiática do futebol há quase 10 anos a partir de seus elementos concorrenciais e enquanto elemento cuja transmissão deveria ser considerada como de “interesse nacional”, logo com observação sobre as regulações sobre isso. O meu único livro tem como título “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol”. Mais empírico impossível!

Entretanto, há até mais tempo que isso, eu procurei me identificar como pesquisador do eixo teórico-metodológico da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (EPC). Aprendi nas orientações do saudoso Valério Cruz Brittos que se nós não nos citamos, aprimorando os nossos conceitos, jamais a EPC, que ocupa a periferia na Comunicação, irá se desenvolver.

Assim, por exemplo, um conceito-chave para as minhas pesquisas sempre foi o de “barreiras político-institucionais”, adaptado por Brittos a partir de Bolaño (2000), que segue a linha heterodoxa da análise concorrencial de Possas (1987) – autor que enfrentou o desafio de construir uma perspectiva de estruturas de mercado a partir de uma visão marxista.

Como vinha de uma formação lendo mais Marx e Lukács que autores da Comunicação, fiz a escolha no Mestrado de focar a leitura na Economia Política da Comunicação (brasileira), pois estava num grupo de pesquisa que partia dela para fazer a análise dos mercados, empresas e programas da Indústria Cultural. O entendimento era simples: se estou filiado a tal escola, preciso dialogar com a sua construção teórica e seus conceitos. E assim seria se eu tivesse estudado a partir da Análise do Discurso de tradições francesas, da Análise de Sites de Redes Sociais ou dos Estudos de Jornalismo – que estudei e dialoguei em algum momento. Filiação de pesquisa requer conhecimento sobre o eixo escolhido e diálogo teórico-conceitual com o que se desenvolve.

Alguém pode me questionar sobre as necessidades que o objeto de pesquisa nos impõe, se isso não seria bloquear as possibilidades de análise. Respondo que normalmente divido o plano metodológico em duas partes: método, base teórico-metodológica que eu parto para o meu olhar; e procedimentos metodológicos, como eu vou pesquisa tal objeto (entrevistas, pesquisa de campo, outra revisão de literatura etc.).

Até eu começar a produzir sobre futebol, havia apenas dois artigos curtos de Bolaño (1999; 2003) que tratam de esportes, mas com foco na capoeira. Para a revisão de literatura sobre o futebol no Brasil eu precisei incluir, mas de forma crítica, autores de outras ciências e perspectivas de análise. Não tive problema quanto a isso.

Além disso, tenho alguns artigos em que tento demonstrar alguns conceitos maiores a partir do meu observável de estudo, que é algo popular e, assim, poderia ajudar na difusão da EPC. Além de trazer a questão das barreiras de mercado com frequência para analisar a disputa pelos direitos de transmissão de torneios esportivos, também produzi artigos sobre “os pontos da entrada de EPC” (SANTOS, 2014), a “fase da multiplicidade da oferta” (SANTOS; MARIA, 2014) e “mercadoria audiência” (A. SANTOS, I. SANTOS, 2018).

Com o aumento das exigências no doutorado, venho tentando me aprimorar no conhecimento teórico mais clássico, a partir de obras de autores como o já citado Possas (1987; 1989), Furtado (2008) e Marx (2011). Aqui entra outra questão, que é tentar me situar com maior cuidado enquanto pesquisador marxista da comunicação. Até este momento mantive a preocupação de evitar me identificar assim, apenas naquilo que eu realmente lia e trabalhava, que é ser pesquisador da EPC na perspectiva de alguns autores brasileiros.

Para as escolhas que eu fiz enquanto pesquisador para a filiação teórico-metodológica que atuo e defendo vejo esse movimento como essencial. Mas nada impede que outras pessoas não busquem, mesmo próximas à EPC, esses movimentos ou até mesmo a filiação a ela ao escrever monografia de TCC ou a dissertação. Porém, sendo agora ortodoxo quanto a isso, para ser pesquisador nesta área é necessário ler autoras – que tenho noção de que não citei aqui, o que levaria a outro texto sobre a área – e autores dela; e partir da EPC, e aí trazer outras teorias ou metodologias necessárias, para observar os objetos. Não vejo como negociar.

O empírico da militância

Entrando numa questão mais sensível e ciente que posso apanhar mais, ainda que a minha trajetória não envolva militância em coletivos sociais mais organizados ou partidos políticos, foram as escolhas político-ideológicas que me levaram à EPC, não de forma mais tradicional – ter um professor a apresentar a área e, assim, estudar os objetos infocomunicacionais a partir dessa perspectiva.

Para quem está na pós-graduação enquanto estudante já há o desafio de equilibrar as questões que apontei no tópico anterior com os prazos exigidos para qualificação e defesa, entre outras coisas. Contando com o contexto político do Brasil dos últimos anos, é ainda mais necessário manter a militância em seu respectivo coletivo ou partido. Até por isso, seria irresponsável da minha parte exigir algo neste tópico, não sendo alguém que se enquadra neste perfil, mas apenas sugerir.

Penso que nós podemos definir prioridades (ou ordem dessas) para atuação em diferentes espaços. É fundamental estabelecer limites para manter a saúde mental e não se sobrecarregar e, ao mesmo tempo, pouco para si mesma/o. Venho tentando deixar isso claro nos grupos/entidades que participo não só para externar os meus limites, mas também para ouvir os das outras pessoas. Mais que pesquisadoras e pesquisadores ou números de matrícula, somos seres humanos.

Assim, uma coisa que eu passei a pedir também é que as pessoas sejam transparentes quanto às prioridades e limites (temporários) de atuação. A situação está bem difícil mesmo, todas/os temos momentos muito ruins. Temos que construir uma cultura de atuação coletiva no âmbito acadêmico em que valha mais a pena participar da forma que pode e quando pode. Só que isso precisa ser externado.

A lealdade a se construir passa, ao menos para mim, bastante pela construção da confiança não só na hora de fazer, mas também nos momentos em que as outras pessoas sabem que naquele momento não é possível contar comigo. Assim, as atividades são melhor planejadas ou até adiadas, se for o caso.

Para soar mais forte quanto a isso, é preciso considerar que ainda que haja o conceito marxista de práxis, que considera a necessidade de “ação consciente” sobre a realidade, são várias ações possíveis em diferentes campos que, especialmente, funcionam de formas distintas.

Tenho clara noção que a minha atuação na “disputa epistemológica” não é suficiente para a transformação radical da sociedade que eu defendo – o que também daria outro texto; mas a militância per si não é suficiente para a disputa epistemológica que, ao adentrar na esfera da pesquisa – como discutido no tópico anterior – passa a ser importante considerar quando se é de um eixo de pesquisa periférico.

Chegando ao fim do texto

Longe de estabelecer conclusões, espero com este texto possa estimular possíveis respostas sobre as duas questões tratadas aqui – a Coluna CEPOS está aberta para isso. Enquanto presidente atual da Ulepicc-Brasil, vejo cada vez mais o quanto é muito importante ampliar as possibilidades de atuação coletiva. Entendo que isso só poderá ocorrer, e consequentemente, ampliar a nossa atuação, quando os nossos limites de participação e desafios para isso são postos à mesa.

*Professor da UFAL, doutorando em Comunicação na UnB, presidente da Ulepicc-Brasil e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol”.

Referências Bibliográficas

BOLAÑO, César. A capoeira e as artes marciais orientais. Candeeiro, Aracaju, v. 3, p. 51-56, out. 1999.

BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Esporte e Capoeira. Identidade Nacional e Globalização. Candeeiro, Aracaju, v. 9-10, p. 33-42, out. 2003.

BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Indústria Cultural, Informação e Capitalismo. São Paulo: Hucitec/Polis, 2000.

FURTADO, Celso. Criatividade e dependência na civilização industrial. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 [1978].

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1: O processo de produção do capital. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2011. Edição do Kindle.

POSSAS, Mário Luiz. Dinâmica e concorrência capitalista: uma interpretação a partir de Marx. São Paulo: Hucitec, 1989.

POSSAS, Mário Luiz. Estruturas de mercado em oligopólio. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1987.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol. Curitiba: Appris, 2019.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os três pontos de entrada da Economia Política no futebol. Rev. Bras. Ciências do Esporte, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr./jun. 2014.

SANTOS, A. D. G.; SANTOS, I. S. da C. Debate teórico do conceito de mercadoria audiência a partir da apropriação do torcedor de futebol. In: SANTOS, Verlane Aragão; HERRAMILLO-HERRERA, Maurício. (Orgs.). Economia Política, Comunicação e Africanidades: XV Seminário OBSCOM/CEPOS. São Cristóvão: ULEPICC-BR/OBSCOM-CEPOS, 2018. p. 80-95.

SANTOS, Anderson David Gomes dos; MARIA, Dijair Brilhantes. A Fase da Multiplicidade da Oferta na Indústria Cultural e no futebol. Mediação, v. 16, n. 18, jan.-jun. 2014. p. 45-61.

A Informação Livre na Internet e o Sleeping Giants

Guilherme Bernardi12

A semana de 17 a 22 de maio apresentou vários momentos para que pensemos as mídias sociais, a internet livre e como aparecem e se misturam as formas publicidade e propaganda, expostas por Bolaño (2000)3, na era da rede mundial de computadores e suas ferramentas digitais de informação e comunicação.

Em uma definição rápida, a forma funcional publicidade é aquela própria ao mercado e necessária para a circulação de mercadorias. Já a propaganda é própria ao Estado, necessária para a coesão e organização social.

Na segunda-feira (18), Felipe Neto, um dos maiores youtubers do país, esteve no centro do Roda Viva, da TV Cultura, um dos mais tradicionais programas da televisão brasileira. A entrevista rendeu discussões sobre os termos que ele usou (golpe, fascismo…), mas também sobre a influência da internet no debate público, os limites desse apoio e qual o papel de pessoas como ele na construção de oposição ao atual governo do Brasil em meio – principalmente, mas não só – a uma pandemia. Voltaremos ao assunto na sequência.

Antes disso, entretanto, no domingo (17), o El País Brasil publicou um texto no qual destaca a atuação do movimento Sleeping Giants nos Estados Unidos4. O movimento criado em novembro de 2016 (ano da eleição de Donald Trump), através de um perfil no Twitter (@slpng_giants), informa e alerta empresas, anexando prints, de que a publicidade de seus produtos está sendo anunciada em sites de extrema-direita. Com isso, as empresas podem entrar em contato com o contratado e fazer com que a publicidade nesse tipo de site/conteúdo seja retirada, desferindo um golpe no financiamento de produtores midiáticos que recebem muitos cliques a despeito ou por causa do conteúdo mentiroso ou sensacionalista que criam e propagam.

Três dias depois, na quarta-feira (20), o mesmo El País Brasil noticiou que um estudante que desenvolve pesquisas relacionadas a fake news criou um perfil brasileiro do movimento (@slpng_giants_pt)5. Em menos de uma semana, o perfil passou a mais de 200 mil seguidores e entrou em choque com o governo federal ao informar ao Banco do Brasil (BB) que havia publicidade sua no site Jornal da Cidade Online6. Em um primeiro momento, o BB retirou a publicidade do site, mas, após reclamações de membros do governo e de Carlos Bolsonaro, filho do presidente, a publicidade foi restaurada.7

Na mesma quarta-feira foi publicado o episódio número cinco do Jogando Dados, podcast sobre Economia Política da Comunicação (EPC) fruto da parceria Cubo/UEL e CEPCOM/UFAL, no qual a discussão partiu de uma pergunta simples: “A informação é livre na internet?”8 Para nós, membros do podcast, ela não é. Para justificar a resposta, abordamos algumas das questões que retomaremos a seguir, mas também outras mais, que não serão exposta aqui, mas estão no episódio de pouco mais de uma hora.

Há uma espécie de senso comum geral que acha que sim, que a internet é livre, mas é preciso de algumas formas de regulação (seja de conteúdo ou de mercado). Nesse sentido, no começo do mês, o Facebook anunciou um comitê de especialistas para regular postagens e conteúdos feitos no site de rede social.9 Há várias críticas possíveis de serem feitas, como a falta de transparência sobre o tipo de postagem que será excluída e quais os parâmetros para tal, afinal, postagens diversas já foram excluídas de forma aparentemente sem sentido (desde conteúdo relativo à pandemia até a histórica foto do soldado soviético com a bandeira da União Soviética no Reichtag, em 194510), mas também, como argumenta o professor Siva Vaidhyanathan, da Universidade da Virginia, sobre a composição do comitê, há a maioria de membros dos Estados Unidos e os próprios limites técnicos (número de postagens, linguagem delas etc.) no comitê11. Ele coloca ao final do artigo que o problema do Facebook não é a regulação de conteúdo e postagens que foram/são excluídas, mas o próprio Facebook. Esse argumento aparece já em seu livro sobre o site12.

Poderíamos argumentar mais além, que a estrutura da internet, privatizada e massificada na década de 1990, baseia-se na venda de publicidade (principal fonte de recursos de Google e Facebook, por exemplo) e no domínio de megacorporações, como as reunidas na sigla GAFAM (Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft), que têm ações em bolsas de valores e são grandes grupos que lucram ainda com especulação e financeirização da economia.

Entretanto, além dessas nuances de interesses de corporações privadas e do capital financeiro não serem o foco principal, geralmente o debate fica muito superficialmente na regulação do conteúdo e no combate as assim chamadas fake news, que, como tratamos em outros episódios, especialmente o #113, existem como possibilidade e realidade desde muito antes.

Enfim, tudo isso para voltar no ponto de que as iniciativas como o movimento Sleeping Giants são bem interessantes e notificar empresas para que tirem seus anúncios de sites de fake news e de extrema-direita e afins são importantes em uma, digamos, disputa mais pontual, mas o grosso (esse sistema de financiamento e de “direcionamento” de publicidade) está lá ainda.

Na quinta-feira (21), o professor Marcelo Castañeda (UFRJ), em seu perfil no Twitter (@celocastaneda), apontou o problema do Google e do AdSense14, mas foi o professor Fabio Malini (UFES) quem desenvolveu e publicou, também em seu perfil no site (@fabiomalini), um fio sobre o coração do tipo de negócio dos propagandistas da extrema-direita. Segundo Malini, o movimento citado acima ataca a “franja” da micropropaganda, mas falta atacar o “núcleo duro” que é, para ele, o Google15.

Concordamos com Malini que o Google e o sistema do AdSense são um problema, assim como todo esse sistema baseado na forma publicidade (remuneração, recomendação de conteúdo ou parametrização de algoritmo para montagem de linhas do tempo), entretanto, discordamos não da necessidade, mas da possibilidade/efetividade de uma regulação do Google. Não se mostra possível dentro da lógica contemporânea do capital financeiro e do neoliberalismo uma regulação do tipo fordista, que vigorou nos países centrais no período pós-guerra.

Esse sistema baseado na lógica da publicidade, entretanto, já se espraiou para além do mercado e está misturada com a da propaganda. Por exemplo, as revistas acadêmicas são ranqueadas em relevância de acordo com um algoritmo do Google, mas também a própria ideia de importância de algum tipo de pesquisa ou desenvolvimento acadêmico está sendo pautada pela relevância/retorno à sociedade – isso, claro, baseado em visualizações, pessoas impactadas, divulgação etc.16 Ou seja, no lugar da discussão sobre métodos e formas de produção de conhecimento, estamos nos pautando por modelos de divulgação, de citação e quantidade de referências/pessoas alcançadas e afins. O que era da lógica do Estado organizar, agora está sendo pautado pelo mercado através da forma publicidade.

Para fechar a semana, na sexta-feira (22), o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a divulgação de uma reunião entre ministros e presidência da república17. Pouco há de provas18, mas esse tipo de informação é noticiada, repercutida, comentada, enfim, é circulada e pauta o debate “público”. A publicidade desse tipo de conteúdo pouco fragiliza o governo, mas serve e muito para reorganizar e garantir a coesão da base bolsonarista. Em outros termos, é a propaganda operando pela lógica da publicidade.

Voltemos então ao episódio do Felipe Neto para encerrar essa primeira abordagem do tema, que deverá ser desenvolvida posteriormente na sequência das pesquisas. Felipe Neto foi ao Roda Viva, defendeu pautas “progressistas” e virou alvo de uma série de discussões sobre sua mudança, que tipo de composição pode ser feita com gente como ele (arrependidos, influenciadores digitais…) e sobre o uso de termos como golpe e fascismo para falar de 2016 e do atual governo do Brasil. Tudo isso pode ser interessante de se discutir, mas não é o foco desse texto.

Mais relevante aqui é a discussão levantada a partir de postagem feita pela professora Suzy Santos (UFRJ) em sua página no Facebook19. Nela, Santos faz uma pergunta bem simples, mas que não foi feita ao entrevistado no programa: Por que Felipe Neto fala como progressista na televisão e no Twitter, mas não posta nada do tipo no YouTube, onde tem mais alcance e de onde recebe a maior parte de seus rendimentos? Essa mistura das formas publicidade e propaganda aparece como o convite para que Felipe Neto participe do programa e seja tido como relevante por causa de seu alcance e da repercussão que gera, ou seja, da publicidade, mas ele entra nesse espaço “público” e da discussão mais ligada à forma propaganda sem, entretanto, arriscar penalizar sua fonte de lucros (o YouTube), afinal, ele provavelmente entende muito mais de internet do que nós.

Entender, portanto, como o governo e o Estado estão atuando de acordo com o espraiamento da lógica do mercado através da forma publicidade ajuda a pensar em como travar um embate através dela (estratégias de monetização de conteúdo junto à denúncia de outros, formas mais adequadas de atuação nas redes sociais e no jornalismo etc.), mas, no final, é importante reiterar que o problema é da própria forma, logo, não é possível superar o problema sem a superação da forma social da comunicação e do próprio capitalismo.

1Esse artigo surgiu de um fio elaborado no Twitter e de conversas com os outros membros do podcast Jogando Dados (Anderson Santos, Gabriela Fernandes Silva, Manoel Dourado Bastos) durante e entre os episódios.

2É jornalista do Sindiprol/Aduel, mestrando do programa de pós-graduação em Comunicação da UEL e membro do podcast Jogando Dados.

3 BOLAÑO, César. Indústria cultural: informação e capitalismo. São Paulo. Pólis/Hucitec. 2000.

4QUEIMALIÑOS, Rebeca. O homem que arruinou a extrema-direita. El País Brasil, 17 maio 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/icon/2020-05-17/o-homem-que-arruinou-a-extrema-direita-nos-eua.html> Acesso em: 22 maio 2020.

5PIRES, Breiller. Movimento expõe empresas do Brasil que financiam, via anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas. El País Brasil, 20 maio 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-20/movimento-expoe-empresas-do-brasil-que-financiam-via-publicidade-sites-de-extrema-direita-e-que-propagam-noticias-falsas.html> Acesso em: 22 maio 2020.

6Caso alguém queira ver o tipo de conteúdo publicado no site, o endereço é: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/ .

7MATTOSO, Camila; CARNEIRO, Mariana; SETO, Guilherme. Após reclamação de Carlos Bolsonaro, Banco do Brasil volta atrás e mantém publicidade em site. Folha de S. Paulo, 21 maio 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/05/apos-reclamacao-de-carlos-bolsonaro-banco-do-brasil-volta-atras-e-mantem-publicidade-em-site.shtml?> Acesso em: 22 maio 2020.

8 SANTOS, Anderson; BASTOS, Manoel; BERNARDI, Guilherme. A Informação é livre na internet? Jogando Dados, 20 maio 2020. Podcast. 1 MP3 (61 min.). Disponível em: <https://anchor.fm/jogando-dados/episodes/05—A-informao–livre-na-internet-eear8o> Acesso em: 20 maio 2020.

9AFP. Facebook apresente comitê de especialistas para decidir sobre conteúdo polêmico. Estado de Minas, 6 maio 2020. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/05/06/interna_internacional,1145065/facebook-apresenta-comite-de-especialistas-para-decidir-sobre-conteudo.shtml> Acesso em: 19 maio 2020.

10No caso da exclusão de conteúdo de forma errada, é possível acompanhar a iniciativa do CensuraBot lançado pelo Observacom: https://www.observacom.org/censurabot/. Sobre a exclusão da foto do soldado soviético, ver o tuíte com a referência postada por Filipe Barini: https://twitter.com/molote_molote/status/1259131763806404609.

11VAIDHYANATHAN, Siva. Facebook and the Folly of Self-Regulation. Wired, 9 maio 2020. Disponível em: <https://www.wired.com/story/facebook-and-the-folly-of-self-regulation/> Acesso em: 19 maio 2020.

12___________________. Antisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy. Oxônia. Oxford University Press. E-book. 2018.

13SANTOS, Anderson; BASTOS, Manoel; BERNARDI, Guilherme. O que é desinformação? Jogando Dados, 22 abril 2020. Podcast. 1 MP3 (67 min.). Disponível em: <https://anchor.fm/jogando-dados/episodes/01—O-que–desinformao-ed4bnf> Acesso em: 20 maio 2020.

14https://twitter.com/celocastaneda/status/1263652717106429952

15# https://twitter.com/fabiomalini/status/1263655711411757057

16Vale ouvir o episódio sobre “Anti-Intelectualismo” do podcast Psicanálise de Conjuntura que aborda o tema. BARROS, Douglas et al. Anti-Intelectualismo. Psicanálise de Conjuntura, 19 maio 2020. Podcast. 1 MP3 (102 min.). Disponível em: <https://senscast.org/2020/podcast/psicanalise-de-conjuntura-08-anti-intelectualismo/> Acesso em: 20 maio 2020.

17Vídeo de reunião de Bolsonaro é divulgado na íntegra pelo STF; veja falas mais importantes. BBC, 22 maio 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52779195> Acesso em: 22 maio 2020.

18Poderíamos expandir e analisar como é um padrão da Lava Jato e, mais recentemente, na saída de Sérgio Moro do governo. O objetivo não é primordialmente jurídico/político, mas comunicativo. A motivação é pautar o debate, criar narrativas, abrir espaço e, aí, organizar a base. O jornalismo, num geral, ajuda e muito ao apenas publicar as faltas e dar espaço para o tipo de fala que não dividi, mas agrupa a base bolsonarista.

19https://www.facebook.com/suzy.santos.7/posts/3423032184393314

De dentro da pandemia de 2020. Uma crítica a Byung-Chul Han

César Bolaño*

Também o céu às vezes desmorona

E as estrelas caem sobre a terra

Esmagando-a com todos nós.

Isso pode ser amanhã.

(Brecht)

Não devemos julgar os intelectuais por reações pontuais a eventos inesperados diante dos quais suas teorias se vêm repentina e brutalmente interrogadas. Assim, a primeira reação de Tony Negri frente à invasão norte-americana ao Iraque, ainda no rastro do ataque às torres gêmeas, afirmando indignado que os Estados Unidos haviam rasgado a constituição do império1, mostra sem dúvida uma dificuldade em interpretar o fenômeno com as ferramentas de análise de que dispõe, mas não é por esse motivo que criticamos a sua conhecida – delirante, como dizia Gorz2 – teoria.

Assim, não cabe tampouco julgar o excelente trabalho de Mbembe pela sua afirmação, diante da pandemia, de que “o poder de matar foi totalmente democratizado”3, numa entrevista, aliás, que evidencia, talvez mais do que certos limites do seu enfoque de base foucaultiana, aspectos muito interessantes do seu conceito, extremamente atual, de necropolítica. A ideia de que o isolamento social seja “uma forma de regular esse poder”, assim democratizado, talvez esteja de acordo com o fato de que “as novas tecnologias de destruição estão menos preocupadas com a inscrição de corpos em aparatos disciplinares do que em inscrevê-los, no momento oportuno, na ordem da economia máxima, agora representada pelo ‘massacre’”4.

Em todo caso, não se pode perder de vista que, para o autor, “o principal desafio que nossa época enfrenta é o da refundação do pensamento crítico”, reconhecendo que “a humanidade do ser humano não está dada” mas “se arranca e se cria no decorrer das lutas”5. Como fazê-lo a partir de agora, num mundo de vírus, isolamentos e avanço da extrema direita? Talvez a resposta deva ser buscada em outros grandes representantes do pensamento negro, como Fanon, para quem a sociedade burguesa é simplesmente “uma sociedade fechada, onde não é bom viver, onde o ar é pútrido, as ideias e as pessoas em putrefação. E um homem que toma posição contra esta morte é, em certo sentido, um revolucionário”6. Não é este afinal o desafio do nosso tempo?

Para o filósofo pós-moderno Byung-Chul Han, classe e luta de classes são categorias historicamente ultrapassadas, mesmo na versão também pós-modernista de Negri e Hardt, opondo o “império” à “multidão”. O autor prefere teorizar sobre um “enxame digital”, que se distinguiria da “massa tradicional”, a qual, “como a massa de trabalho, não é volátil, mas sim dotada de vontade … e não constitui um paradigma efêmero, mas sim formações firmes. Com uma alma, unida por uma ideologia, ela marcha em uma direção”7, mas o mundo de hoje seria o dos enxames, da volatilidade… Deixemos para outros essas elucubrações.

O fato é que Han também escreveu sobre a crise da Covid 19, um texto que circulou bem na internet, no qual trata o tema das respostas nacionais à pandemia, considerando que os países asiáticos estariam controlando melhor a situação que a Europa por causa de uma “mentalidade autoritária” que facilitaria a adoção de medidas de vigilância digital que a consciência crítica europeia não permitiria.

Não é que a Europa não tenha adotado também a vigilância digital, posto que se trata de importante instrumento também para regular aquele poder de matar democratizado, mas, segundo o autor, “na Ásia impera o coletivismo. Não há um individualismo acentuado … Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses momentos na Europa. Graças à proteção de dados, entretanto, não é possível na Europa um combate digital do vírus comparável ao asiático”8. A posição do autor é inequívoca: “espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês”9. Em todo caso, “a China poderá agora vender seu Estado policial digital como um modelo de sucesso contra a pandemia. A China exibirá a superioridade de seu sistema ainda mais orgulhosamente. E após a pandemia, o capitalismo continuará com ainda mais pujança”10.

A descrição das políticas em diferentes países é interessante, mas sua reflexão é de um momento inicial, quando a expansão da pandemia nos Estados Unidos, por exemplo, ainda não adquirira a dramaticidade que viria a apresentar logo após. Assim, a avaliação positiva que faz do caso do Japão parece ter sido precipitada. Tampouco são citados países ocidentais aparentemente bem-sucedidos, como Cuba, Venezuela e inclusive a Alemanha, onde vive o autor, de modo que a hipótese central de uma separação entre as respostas à crise no Oriente e no Ocidente, estabelecendo uma oposição de princípio entre liberdade e eficiência respaldada por diferenças de ordem cultural, fica prejudicada, pelo menos enquanto não se conheça o balanço final, após concluído o movimento de expansão global da pandemia, incluindo países importantes como Rússia, Índia e Brasil.

E mesmo que os dados confirmem uma maior adequação da resposta dos países asiáticos, a relação entre autoritarismo e eficácia ainda teria que ser provada. Uma hipótese alternativa, que também precisaria ser testada, poderia ser a de que a capacidade de resposta seria superior naqueles países menos atingidos, ao longo dos últimos 30 ou 40 anos, pelas políticas neoliberais e onde foram mais preservadas as capacidades de intervenção estatal, de planejamento, de mobilização social para fazer frente a crises e catástrofes, de adoção de políticas públicas adequadas de inclusão social etc.

Mike Davis, num artigo com o sugestivo título de “a crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo”, no item não menos sugestivo, “o legado da austeridade”, supõe, de forma mais cuidadosa, a superioridade da resposta chinesa em relação à americana: “daqui a um ano podemos olhar para trás com admiração para o sucesso da China em conter a pandemia, mas com horror ao fracasso dos Estados Unidos. A incapacidade das nossas instituições de manter a Caixa de Pandora fechada, é claro, não é uma surpresa. Desde pelo menos 2000, temos visto repetidamente falhas na linha de frente dos cuidados de saúde”11.

O artigo de Davis faz parte de uma coletânea sobre o tema composta por textos traduzidos ao português de importantes autores marxistas, que deixarei para comentar, pela sua complexidade e importância, em uma próxima ocasião12. Mas todos sabemos bem do que ele fala. Não se trata aqui de desqualificar a discussão, proposta por Byung-Chul Han, das diferenças entre Oriente e Ocidente, um tema, aliás, tratado por Gramsci, por exemplo, na sua definição mesma de sociedade civil. Mas a conclusão do autor – criticando explicitamente a posição de Zizek, que tampouco vou analisar aqui, segundo a qual o vírus colocaria o capitalismo em cheque – não passa de um inconclusivo jogo de palavras:

“O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. … Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta”13.

Ou seja, o capitalismo vencerá e o que nos cabe é “acreditar que virá uma revolução humana” para restringir o “capitalismo destrutivo” (não fica claro se existiria outro, não destrutivo, ou se se trata de restringir “radicalmente” o caráter destrutivo do capitalismo, ou ainda se o problema seria apenas com o eficiente capitalismo chinês, oriental) e também a “nossa” mobilidade destrutiva, nós, pessoas dotadas de razão (com toda a ênfase) e preocupadas com o “nosso belo planeta”. Enfim: idealismo conformista, reafirmando a crença numa razão abstrata capaz de regular o capitalismo para controlar o quanto possível seu caráter destrutivo, mas reconhecendo a impossibilidade de superá-lo.

Ora, o que a crise sanitária em curso explicita são justamente os limites do desenvolvimento capitalista, cujos interesses – a valorização tautológica do capital, que redunda na expansão sem limites da forma mercadoria e, com ela, de uma sociabilidade consumista destrutiva, concentração absurda de riqueza, miséria e violência crescentes, destruição do meio ambiente – chocam-se com os interesses humanos, expondo o conjunto dos indivíduos a graves, inéditos e crescentes riscos, os quais ele próprio, por sua lógica imanente, não tem – e demonstra hoje claramente não ter – capacidade de mitigar. Uma lógica destrutiva da qual o reformismo esperançoso de Han não nos livrará.

É certo que o vírus não derrotará o capitalismo, como ele diz, mas provavelmente, ao final da crise, o grande vampiro, pilotado pela ultradireita neoliberal global, retornará ainda mais sedento de sangue. Como apontam Coggiola e Azevedo, numa situação de crise econômica extremamente agravada pela pandemia, “a única saída viável para os trabalhadores e explorados em geral é impor uma centralização compulsória de todos os recursos do país, com base em um único plano social e econômico, sob a mobilização e liderança dos próprios trabalhadores”14, mas isso evidentemente não faz sentido para Han.

Mas se há esperança possível, ela reside justamente não na “revolução humana”, seja lá o que isso quer dizer, mas lá onde nosso autor não quer ver, naquela revolução que, nas palavras de Césaire, outro dos grandes representantes do pensamento negro, “substituirá a estreita tirania duma burguesia desumanizada pela preponderância da única classe que tem ainda missão universal, porque na sua carne sofre de todos os males da História, de todos os males universais: o proletariado”15.

E este deve entender que “o estilo de vida criado pelo capitalismo industrial sempre será o privilégio de uma minoria. O custo em termos de depredação do mundo físico desse estilo de vida é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana”16. Se, como dizia Mbembe em trecho citado acima, a humanidade do ser humano não está dada, a tarefa do proletariado a que se refere Césaire é hoje, na luta, construir uma nova e livrar-nos do rastro de destruição e morte que o domínio do capital vem semeando.

*Professor titular aposentado do Departamento de Economia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Docente do Mestrado Profissional em Economia e Desenvolvimento da Universidade Federal de Sergipe (Propec/UFS), Líder do grupo de pesquisa Obscom/Cepos.

1Antonio Negri. Entrevista publicada na Folha de São Paulo, 30/03/2003 – Caderno A, p. 26. BORON, Atilio (2002). Imperio e imperialismo. Buenos Aires: Clacso faz uma crítica extensa do conhecido livro Imperio, de Negri e Hardt (edição brasileira de 2001, pela Record, Rio de Janeiro). No prólogo à 5ª edição (2004), Borón faz uma série de considerações derivadas do ataque norte-americano ao Iraque, onde cita essa curiosa afirmação de Negri, feita também em entrevista a um diário argentino. Eu mesmo produzi uma crítica ao livro à época (O império contra-ataca), disponível ainda no portal EPTIC <www.eptic.com.br>.

2GORZ, André (1998). Miserias del presente, riqueza de lo posible. Buenos Aires: Paidós. Esta referência foi extraída de LESSA, Sergio (2005), Para além de Marx? Crítica da teoria do trabalho imaterial. São Pualo: Xamã, que faz uma excelente revisão crítica dos trabalhos de Negri, Hardt e Lazzaratto anteriores ao Império, dando-se ao trabalho de “leitura de livros enormes, textos rebuscados e de estilo na maior parte das vezes rococó” (p. 15), pelo que devemos registrar nosso agradecimento.

3Achille Mbembe. Entrevista publicada na Folha de São Paulo, 30/03/2020. In: <https:/ /www1.folha.uol.com.br/cotidiano/coronavirus/> Acesso em 26/04/2020.

4MBEMBE, Achille (2018). Necropolítica. São Paulo: M-11, 2019, p. 59.

5MBEMBE, Achille (2010). Sair da grande noite. Ensaios sobre a África descolonizada. Petrópolis: Vozes, 2019, p. 245.

6FANON, Frantz (1952). Pele negra máscara brancas. Salvador: Editora UFBa, 2008, p. 186.

7HAN, Byung-Chul (2013). No enxame. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 30

8HAN, Byung-Chul (2020). O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã. In: Revista IHU Online, Instituto Humanitas Unisinos, 23 Março 2020. Publicado originalmente em El Pais, 22/03/2020.

9Idem

10Idem

11DAVIS, Mike (2020). A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo. In: HARVEY, David; ZIZEK, Slavoj; BADIOU, Alain; DAVIS, Mike; BIHR, Alain; ZIBECHI, Raúl (2020). Coronavirus e luta de classes. Editora Terra sem Amos <www.terrasemamos.wordpress.com>, p. 7.

12Cito apenas os títulos dos artigos e os nomes dos autores para que se tenha uma ideia do conteúdo. Além do texto de Davis citado na nota anterior, constam: “Política anticapitalista em tempos de COVID-19” (David Harvey); “França: pela socialização do aparato de saúde” (Alain Bihr); “Coronavírus: a militarização das crises” (Raúl Zibechi); “Sobre a situação epidêmica” (Alain Badiou); “Um golpe como ‘Kill Bill’ no capitalismo’ (Slavoy Zizek)

13HAN, Byung-Chul (2020), op. cit.

14COGGIOLA, Osvaldo; AZEVEDO, Edgar (2020). Pandemia, crise do capital e luta de classes, mimeo.

15 CÉSAIRE, Aimé (1956). Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1978, p. 69

16FURTADO, Celso (1974). O mito do desenvolvimento. São Paulo: Círculo do Livro, p. 74-75.

#FicaBBB: ativismo digital, hashtags e fadas sensatas

Por Aianne Amado (1) e Carlos Figueiredo (2)

No mesmo dia que Tiago Leifert anunciou aos participantes que, pela primeira vez na história, a edição do Big Brother Brasil seria estendida devido ao apelo do público, ouviram-se da janela gritos em celebração quando o brother Babu Santana terminou sua participação na prova do líder como favorito, como numa copa do mundo de um jogador só. Na timeline do Twitter, memes surgiam numa velocidade humanamente impossível de consumir em totalidade.

Horas antes, o presidente Jair Bolsonaro havia demitido o então ministro da saúde, em meio à pandemia global do COVID-19. A janela também anunciou: dessa vez com panelas. Os memes tinham um tom mais fatalista que aqueles que viriam mais tarde, mas ainda regados de humor.

Essas duas situações nos levaram a algumas reflexões que tentaremos levantar aqui. Começando pelo artigo “How the world’s collective attention is being paid to a pandemic: COVID-19 related 1-gram time series for 24 languages on Twitter” (3), que analisa os principais termos ou símbolos utilizados nas três primeiras semanas de março de 2020 para cada língua no Twitter. Dos 20 resultados para a língua portuguesa, 13 estavam relacionadas ao reality show da Rede Globo e seus participantes, contra 5 sobre a pandemia. A dessemelhança com os resultados de outras línguas também chama atenção:



Lista dos termos mais recorrentes durante as três primeiras semanas de março dentre as 6 línguas mais faladas do site de rede social Twitter. Fonte: ALSHAABI et. al, 2020

Ao longo dos anos, o debate sobre pautas sociais no Big Brother Brasil vem crescendo, já desenhado desde a seleção dos participantes pela produção do programa, tendo dentre eles ativistas e defensores de causas como gênero, raça e sexualidade (curiosamente, debates partidários não são comuns entre o elenco – ou, se são, não passam pelo corte da edição). Nesta 20ª edição, essas pautas ganharam destaque central para o desenrolar da competição, especialmente as duas primeiras problemáticas citadas. Ademais, essa também é a primeira edição em que participam pessoas já famosas antes do programa, com uma base de seguidores fiéis nas redes sociais, o que acalorou as rivalidades dentro e fora do confinamento.

Os fãs sempre estiveram inseridos na lógica do programa: Bruno Campanella mostra fandoms altamente organizados em sua tese, escrita há 10 anos (4). E, como em todo consumo de fã, o afeto interfere imediatamente na interpretação do texto, mas, especificamente em realitys de votação pública, há a certeza de interferência no resultado final mediante participação. Contar com um público fiel e parcial já antes da disputa começar proporcionou uma vantagem única.

Como eficiente programa de entretenimento, o Big Brother dá ao público a oportunidade de criar narrativas maniqueístas, de fácil acompanhamento até para aqueles que não assistem assiduamente. O primeiro grande arco narrativo do BBB 20 aconteceu logo nas primeiras semanas do programa e foi pautado pela desigualdade de gênero, com denúncias de assédio e machismo por alguns homens da casa, os “machos escrotos”; e exaltação do comportamento da maioria das mulheres, que receberam o carinhoso apelido de “fadas sensatas”, com base na identidade da campanha virtual da participante Manu Gavassi, a mais famosa pré-BBB. As fadas sensatas são as que “nunca erraram”, que percebem as injustiças sociais e não têm medo de combatê-las, defensoras da verdade e igualdade. Já os machos foram prontamente eliminados, um a um.

Entretanto, a temática central da edição ainda estava por vir: o preconceito racial. E, num plot twist hollywoodiano, eram as fadas quem assumiriam o papel de vilãs para o mocinho Babu, que tinha uma certa proximidade com o grupo dos machos. Babu é negro e anda pela casa orgulhosamente ostentando seu pente garfo preso no cabelo crespo. Do outro lado figura um autointitulado “grupo hippie”, com membros brancos à exceção de Thelma, amiga e protegida do ator carioca. Dentre alguns posicionamentos infelizes, o grupo associou Babu a monstruosidades e macumbas. As fadas sensatas agora são, jocosamente, chamadas por alguns de “fadas senzalas”. As disputas, claro, são definitivamente resolvidas no paredão (que, por sinal, bateu o recorde mundial do formato com 1,5 bilhões de votos na disputa entre Prior, melhor amigo de Babu, e Manu Gavassi). Isso não impede que o debate ganhe espaço também nas redes sociais, como deixa claro o levantamento citado acima. Não basta votar, é preciso expressar o voto, se posicionar, fazer campanha, cobrar posicionamento de celebridades e figuras públicas (até o eterno Luke Skywalker, Mark Hammil, entrou para a briga). As hahstags tomam lugar de bandeiras, sendo usadas para evidenciar, orgulhosamente, de que lado está. #FicaFulano e #ForaCiclano. Enquanto isso, o discurso social que iniciou a disputa se esvazia, dando lugar a memes, fake news e ameaças. Não há teoria ou embasamento. Surgem duas competições: uma interna, pela vitória nas votações; e uma externa, pelo fandom mais forte.

Olhando bem, parece até que já vimos esse filme antes.

A participação do público ao BBB 20, programa de TV frequentemente visto com maus olhos pela academia, ilustra diversos pontos discutidos atualmente pelos teóricos da Comunicação Social no Brasil: desde as próprias causas sociais e a respectiva aderência dos espectadores, própria dos Estudos Culturais, até discussões sobre convergência e segunda tela – algo que a Rede Globo demorou para dominar mas hoje usa com maestria. Dentro do campo da EPC (5), alguns pontos que merecem aprofundamentos são: o crescente interesse da emissora nos debates sociais e como ocorre a apropriação desses temas pela Globo; a função interação e as formas de captar o engajamento do público; as maneiras usadas para incorporar a movimentação nos sites de rede social que, inicialmente, não trariam lucros diretos para a produção; e a incorporação da lógica dos fandoms em movimentos políticos.

Sobre esse último, propomos destacar dois conceitos que vem ganhando espaço dentro dos Estudos de Fãs: o fanactivism, ou ativismo de fã, quando a presença no fandom influencia a participação em algum movimento social ou militância; e o fã político, aquele que, mais que um eleitor, possui um comportamento interativo com a figura pública. Até onde vai a causa? Onde o afeto passa a imperar? É possível reconhecer que seu ídolo pode se tornar vilão? Teria meu candidato se tornado uma fada sensata?


Postagem do ator, escritor e comediante Gregorio Duvivier no Twitter.

Grande de parte dos movimentos sociais e partidos de esquerda fazem uso irrefletido das plataformas digitais como ferramentas de comunicação, e acabam aderindo à lógica mercantilista dessas empresas ou ainda usando a ferramenta sem qualquer estratégia ou análise de conjuntura adequada. Gramsci (8), ao analisar como os partidos progressistas poderiam transformar o senso comum, usou uma metáfora comparando as estratégias de convencimento com táticas de guerra. Ele notou que, assim como nos confrontos bélicos de seu tempo, as lutas ideológicas estavam passando cada vez mais da guerra de movimento, realizada em campo aberto onde as forças se confrontavam diretamente, para a guerra de trincheira em que o exército vencedor derruba as trincheiras dos adversários uma a uma. Dessa forma, os partidos progressistas, para transformarem o senso comum e criarem novos consensos, deveriam quebrar resistências culturais, aproveitando-se de elementos progressistas presentes na cultura popular.

O uso da guerra de trincheiras enquanto tática não significaria não usar a guerra de movimento, mas utilizar um conjunto de táticas em diferentes contexto. Tanto que ao citar o exemplo de Gandhi, Gramsci observa que o indiano utilizou três formas de tática: a guerra de movimento, a guerra de posição e a guerra subterrânea para livra a Índia do jugo britânico. A Greve, por exemplo, é considerada guerra de movimento, mas deve vir conjugada com outras táticas para ser efetiva. Os algoritmos utilizados pelas plataformas digitais, ao enclausurarem os usuários de acordo com suas preferências políticas, musicais etc; tornam difícil a guerra de trincheiras e assemelha a disputa política a guerra de movimento em que dois exércitos se enfrentam em campo aberto.

Assim, a esquerda encontra dificuldades para derrubar trincheiras nas redes sociais. Os fandomssejam eles seja políticos, midiáticos ou de participantes do BBB – se baseiam numa identificação primária, muitas vezes pautada pelo reconhecimento de valores morais. No caso dos fandoms políticos, essa identificação se baseia também, normalmente, em uma suposta superioridade moral que renega totalmente a experiência do outro, visto como adversário, e cobra uma aceitação moral total a uma série de preceitos, o que vai de encontro às táticas preconizadas por Gramsci para a criação de um novo senso comum. Na verdade, as bolhas de filtros se apresentam como muros,intransponíveis às táticas dos progressistas em superá-los.

Por fim, nas redes sociais, a extrema direita utiliza uma sofisticada guerra subterrânea de desinformação com uso de Fake News, Bots, grupos de whatsapp etc., lançando mão de recursos e expertises indisponíveis aos movimentos sociais contra-hegemônicos, enquanto os partidos de esquerda utilizam táticas da década passada como os “blogs progressistas” que apoiavam os governos do Partido dos Trabalhadores (PT). O remédio para vencer a desinformação é político. O grande problema é que a própria esquerda abandonou o trabalho de base. A esquerda, no Brasil, cresceu a partir da construção de redes sociais de solidariedade offline, e isso foi trocado, em grande medida, pela política partidária e seus acordos, principalmente durante os governos Lula e Dilma. Se concordamos com a existência de fandoms políticos, as estratégias neles focadas, através de plataformas digitais e hashtags, são de fato oportunas. Porém, não é usando-as como principal ou único recurso que essas ou novas redes, mais adequadas aos novos desafios, serão reconstruídas – muito menos tentando evangelizar a população a partir da lógica da superioridade moral. Um novo tipo de estratégia deve ser adotada nas redes e fora delas, uma tática politizadora. Acreditamos ter exposto os problemas e desafios, e que as soluções devem ser buscadas a partir desse diagnóstico.

  1. Mestre em Comunicação Social. Membro do grupo de pesquisa Obscom/Cepos
  2. Jornalista, Doutor em Sociologia. Membro do grupo de pesquisa Obscom/Cepos
  3. ALSHAABI, Thayer; ARNOLD, Michael V.; MINOT, Joshua R.; ADAMS, Jane Lydia. DEWHURST, David Rushing; REAGAN, Andrew J; MUHAMAD, Roby; DANFORTH, Christopher M.; DODDS, Peter Sheridan. How the world’s collective attention is being paid to a pandemic:COVID-19 related 1-gram time series for 24 languages on Twitter. Março de 2020. Disponível em: http://pdodds.w3.uvm.edu/permanent-share/covid19-ngrams-revtex4.pd
  4. CAMPANELLA, Bruno Roberto. Perspectivas do Cotidiano: um estudo sobre os fãs do programa Big Brother Brasil. 2010. 207 p. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura) – Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: http://www.compos.org.br/data/teses_e_dissertacoes/6b56215cf6a29e8080ec8e6e8a733491.pdf
  5. Raphael (6) e Campanella (7) defendem a inserção da EPC nos estudos sobre o reality show, alegando que “without understanding the political-economic forces that drove the spread of these genre, textual and audience studies may risk reifying it as an expression of audience demand, or of their creators, or of a cultural, discursive, or ontological shift unrelated to the needs of those who run the television industry.” (RAPHAEL 2004, p.119)
  6. RAPHAEL, Chad. The political-economic origins of Reali-TV. In: MURRAY, Susan & OUELLETTE, Laurie (eds.). Reality TV: Remaking Television Culture. 2. ed. New York: NYU Press, 2009, p. 123-140. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/295869264_The_political-economic_origins_of_Reali-TV
  7. CAMPANELLA, Bruno Roberto. Investindo no Big Brother Brasil: uma análise da economia política de um marco da indústria midiática brasileira. E-Compós,v. 8, 11, 2007. Disponível em: https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/133
  8. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

Torcedores, calma! A Amazon no futebol brasileiro pode sinalizar mais para o futuro que para o presente

Anderson Santos1

O texto para esta participação na Coluna Cepos seria sobre a proposta de lei para clube-empresa no Brasil. O esboço já estava pronto, inclusive. Mas o anúncio das negociações do Flamengo com a Amazon para o patrocínio máster vem gerando boatos sobre a entrada do conglomerado internacional na transmissão de futebol no Brasil, considerando que o clube carioca entrou em guerra com o Grupo Globo nestes primeiros meses do ano2. Enquanto pesquisador do assunto, fui instigado por um amigo a tratar disso. É a partir deste diálogo que trato aqui sobre o tema.

Pontos de partida

Outros jornalistas e especialistas sobre marketing do futebol escreveram sobre isso nos últimos dias, ainda que o tema também esteja em textos de sites e blogs de torcedores do clube carioca. Destaco dois deles e pretendo desenvolver alguns argumentos a partir do que tratam: “A tensão entre Flamengo e Globo têm nome: Amazon”, de Bruno Maia3; e “Negociação do Flamengo com a Amazon envolve dobrar valor de patrocínio”, de Rodrigo Mattos4.

São duas perspectivas diferentes sobre o tema. Maia retrata as ações de mercado da Amazon com seu produto de OTT “Prime Video”, incluindo aí a aquisição de direitos de transmissão de eventos esportivos em outros países para testar a viabilidade econômica do streaming ao vivo. Lembra-se que na internet quem vinha fazendo transmissões assim eram aplicativos específicos (DAZN) ou mídias sociais (Facebook e Twitter), com as plataformas de audiovisual focando em séries, filmes e reality shows. Outro fato importante informado por Maia é as contratações de empregados do Grupo Globo para pensar a produção nessa entrada no Brasil.

Já Mattos foca no que está em discussão neste momento entre clube e empresa, apenas o patrocínio máster na camisa, considerando os contratos em vigor sobre transmissão de futebol no país, em que só há espaço de negociação para produção de séries nos bastidores, a exemplo da que será lançada sobre a participação do clube carioca no Mundial de Clubes FIFA 2020.

Mudanças na concorrência

Começando com a concorrência, pesquisadores brasileiros da Economia Política da Comunicação (EPC) usam produções do pesquisador Mário Luiz Possas. Num de seus artigos, o autor cita os seguintes fatores responsáveis pela transformação da estrutura de mercados frente a efeitos da concorrência: o ritmo interno de acumulação de lucros destinados à expansão; o grau de concentração do mercado e os seus determinantes; a possibilidade de mudança nas formas de concorrência, especialmente dada através do progresso técnico; e, por fim, uma maior facilidade em expansão a partir do aprimoramento tecnológico, com a vinculação com outras indústrias, sendo parte de um conglomerado empresarial ou não, e com a economia em conjunto (POSSAS, 1987). São esses fatores que farão parte da nossa análise.

Como diversos estudos que aplicam esta perspectiva aos estudos de concorrência na produção infocomunicacional brasileira demonstram, o Grupo Globo atuou tanto nas barreiras de entrada político-institucionais, definindo limites legais para atuação de concorrentes; quando nas barreiras estético-produtivas, criando padrões de produtos culturais em diversos setores (da TV aberta ao cinema).

Com o avanço das ferramentas da internet, buscou atuar também no streaming, não vendendo conteúdos para outras plataformas que iam surgindo – mesmo no auge do Netflix como agente isolado no setor – e desenvolvendo a sua própria plataforma, configurada atualmente no Globoplay. No futebol, o Premiere FC migrou da assinatura exclusiva via distribuidora de TV fechada para uma opção individual para plataformas móveis, em 2018.

Antes disso, no mercado brasileiro, o Esporte Interativo havia criado o EI+Plus, em 2012, quando estava na fase de empresa nacional pequena que apostava em conteúdos esportivos que sobravam e no que era possível de se conquistar recursos a partir de aprimoramentos tecnológicos, tentando gerar o mercado que ficaria isolada como líder (SANTOS; BOLAÑO, 2017).

Foi justamente o Esporte Interativo, após a aquisição pelo grupo Turner (braço esportivo do conglomerado Warner Media, de propriedade da AT&T), que conseguiu mexer com os direitos do Campeonato Brasileiro de Futebol, após o Grupo Globo adiar uma disputa real sobre os direitos deste torneio nos dois contratos assinados de forma individual pelos clubes (2012-2015, 2015-2018). Mas isso se deu apenas depois de ter se tornado uma das empresas de um grande conglomerado empresarial transnacional.

Considere-se ainda que nos últimos anos vimos a entrada da DAZN no país, plataforma específica para streaming esportivo; e a aquisição pelo Facebook de direitos de transmissão de jogos da UEFA Champions League e da Libertadores5. Ou seja, finalmente a exibição de jogos na internet virou uma plataforma importante de financiamento, lado a lado com o Grupo Globo, inclusive, pagando recursos semelhantes ao da TV aberta no contrato do Campeonato Brasileiro de 2019 a 2024.

É este contexto que atiçou especialmente a torcida do Flamengo quanto a uma possível mudança de cenário na transmissão esportiva no Brasil.

Possibilidades futuras e a legislação

Mas é preciso entender que, como afirma Mattos, a Amazon está ciente de que a questão da transmissão não é para agora, podendo futuramente facilitar o acordo de outros produtos. Até porque os contratos vigentes no Brasileiro são longos, até 2024, enquanto o próprio Grupo Globo está se remodelando desde o final do ano passado para concorrer com os novos agentes de telecomunicações. Pode ser o tempo de o grupo brasileiro se estabilizar ou dar errado – como foi na disputa das distribuidoras de TV fechada do final dos anos 1990 e início da década de 2000.

A Lei do Esporte (9.615/1998) ainda que trate no Art. 42 como “direito de arena” – mudança realizada em 2011 –, refere-se à prerrogativa exclusiva dos clubes de negociar a exibição de seus jogos, mas “por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de que participem”. Portanto, no Brasil a negociação para transmitir uma partida deve ocorrer com os dois clubes participantes, não apenas do mandante.

Ou seja, não adiantaria o Flamengo ter acordo para o Prime Video para transmissão na internet se o seu adversário não tiver acordo com o detentor do direito de transmissão das partidas dos adverários. Um exemplo prático do quanto isso é necessário é que no ano passado o clube vendeu alguns jogos para transmissão em Portugal, afinal o técnico Jorge Jesus é português, mas não conseguiu fazer isso em partidas em que o adversário não quis – considerando que não havia acordo coletivo para transmissão internacional.

Há no Senado um projeto de Lei Geral do Esporte (PLS n. 68/2017) que, dentre tantas outras coisas, define que o “direito de arena” seria apenas para o mandante. No cenário deste projeto de lei ser aprovado e nas condições que foi proposto, pois a única ementa apresentada não trata disso, o mercado como um todo mudaria, pois uma barreira político-institucional cairia.

Mas é importante citar que há discussão no Congresso sobre como situar na legislação as transmissões por ferramentas da internet, se podem ou não ser consideradas “serviço de acesso condicionado a pagamento” e, consequentemente, entrar nos limites impostos pela respectiva lei (Lei n. 12.485/2011).

Outro limite possível vem da Lei do Esporte (Lei n. 9.615/1998), em mudança ocorrida em 2003, após o Vasco ser campeão brasileiro de 2000 com a TV Globo exibindo a logomarca do SBT na camisa da equipe carioca. Há proibição de patrocínio de quem tem concessão, permissão ou autorização de radiodifusão ou TV fechada. O PSL 68/2017 incluiria empresas de internet e até blogs nessa proibição. Assim, por exemplo, sob dois novos entendimentos legais a Amazon não poderia ser patrocinadora de um clube de futebol.

Outras considerações

Discutir se o modelo de “direito de arena” é ou não o ideal, e para quem, ficará para outro momento. Mas minha avaliação é a mesma de outros textos. Falta os clubes se mexerem para além do individualismo, de maneira que o esporte possa crescer e se mostrar mais competitivo frente à concorrência europeia, especialmente.

No final do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol” (SANTOS, 2019), uma das minhas críticas é que os clubes não entenderam que podem negociar por plataforma, perdendo em 2019, inclusive, algumas fontes de receita que o Grupo Globo preferiu não administrar.

O último contrato para o principal torneio de futebol do país, graças a Turner, mudou um pouco isso, mas bem pouco mesmo. A Globo jogou melhor com a maioria. Mas enquanto Palmeiras e Athletico se deram bem financeiramente, quem subiu sem contrato em 2020 vai usar a mesma estratégia para poder ganhar mais e ter maior visibilidade.

Além disso, como citamos no livro, as discussões nos órgãos de concorrência sobre o tema, incluindo aqui no Brasil, propõem que a duração do contrato deveria ser de 3 anos justamente para que não se perca recursos em casos de novas entradas de empresas no mercado ou novas plataformas. Aqui assinaram por 5 anos.

Entende-se, claro que boa parte dos clubes brasileiros atuam no emergencial, no desespero de dívidas que se avolumam. Quem poderia fazer o que o Palmeiras fez no ano passado? Sem jogo exibido por algumas rodadas no principal torneio nacional. O Flamengo pode não ganhar os 18 milhões da transmissão do Carioca, os outros 3 do Rio não – por sinal, o contrato desse estadual foi assinado por 8 anos, só o Flamengo foi o único a fechar por 3.

Ainda que venham surgindo recentemente boatos sobre uma nova liga de clubes brasileiros, após o fim do Clube dos 13 em 2011, o caminho recente vem sendo mais de atuação individual, com os que ganham mais conseguindo ainda mais; que uma distribuição mais equilibrada, o que só se daria com negociação coletiva, algo presente nos modelos ideais quanto ao tema (Premier League, Bundesliga, Copa do Brasil, entre outros).

A aposta de alguns setores políticos e do futebol está na permissão de investimento por grupos financeiros a partir da empresarização plena de um clube. Mas há outros caminhos possíveis e uma longa discussão pública que precisa ser aberta.

Referências usadas

POSSAS, Mário Luiz. Marx e os fundamentos da dinâmica econômica capitalista. Revista de Economia Política, v. 4, n. 3, p. 63-84, jul.-set.1984.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2009.

SANTOS, Anderson David Gomes dos; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Las estrategias de mercado de Esporte Interativo: regionalización y capital extranjero en la televisión brasileña. Chasqui – Revista Latinoamericana de Comunicación, n. 133, p. 283-396, dez.-mar. 2017.

1 Professor da UFAL, doutorando em Comunicação na UnB, presidente da Ulepicc-Brasil e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol”.

2 Escrevi sobre isso em texto no Ludopédio, onde, por sinal, irá o texto sobre a empresarização do futebol brasileiro: https://www.ludopedio.com.br/autores/andersonsantos/

3 Disponível em: <https://blogdojuca.uol.com.br/2020/03/a-tensao-entre-flamengo-e-globo-tem-nome-amazon/>. Acesso em: 12 mar. 2020.

4 Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2020/03/11/negociacao-do-flamengo-com-a-amazon-envolve-dobrar-valor-de-patrocinio.htm>. Acesso em: 12 mar. 2020.

5 Para saber mais sobre streaming, leia texto recente de nossa autoria no site Comunicação e Esporte, disponível em: < https://comunicacaoeesporte.com/2019/10/17/qual-o-estagio-das-transmissoes-de-futebol-no-brasil/>. Acesso em: 12 mar. 2020.

As consequências de “uma escolha difícil”: jornalismo em tempos de bolsonarismo

Carlos Figueiredo(1)

O editorial da última quinta-feira (20/02) do Estado de São Paulo(2) traz todo seu descontentamento com o comportamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Segundo a opinião do jornal, o chefe do executivo federal já teria superado a muito todos os limites do decoro e do desrespeito às instituições democráticas. Trata-se de uma compreensível reação aos ataques sexistas à Patrícia de Campos Mello, jornalista da Folha de São Paulo. Reação repetida por praticamente todos os conglomerados de mídia, exceções feitas ao SBT e à Record.

A hipótese de que Bolsonaro e seus aliados passaram todos os limites do que é aceitável em país que deveria ser regido pelo Estado democrático de direito é eivado de grande hipocrisia. Esses limites já não existem há muito tempo. O atual presidente vem atacando as instituições desde a época em que era um deputado inexpressivo e folclórico. Atirou ofensas ao público LGBT, quilombolas e feministas, afirmou ter usado dinheiro do auxílo-moradia para “comer gente” e sentiu-se à vontade para bradar que metralharia adversários políticos durante a campanha presidencial.

Contudo rememorar as agressões bolsonaristas, em um mero exercício de denuncismo, é repetir o que os grandes conglomerados de mídia já estão fazendo, ou seja, mostrar apenas a aparência do fenômeno e não sua essência. A ascensão política da extrema-direita é a expressão política, no Brasil, da atual crise da forma-capital, que vai se espraiando para as demais formas sociais como o Estado e a comunicação.

Neste espaço, vamos tratar apenas da cobertura midiática dispensada ao Bolsonarismo a partir do marco teórico da Economia Política da Comunicação. Logo o cerne da nossa análise é o trabalho do jornalista, subsumido e subordinado ao capital. Começaremos com uma breve análise do trabalho jornalístico no interior de conglomerados midiáticos para depois discutirmos como os grandes conglomerados de comunicação cobrem o bolsonarismo.

JORNALISMO E TRABALHO
A partir do capitalismo monopolista e a consequente ascensão da indústria cultural, esta assume duas funções essenciais para o funcionamento do sistema capitalista: a função propaganda, responsável por realizar as mediações entre Estado e os cidadãos, e a função publicidade cujo objetivo é construir mediações entre o mercado e os consumidores(3).

Como a natureza da comunicação em democracias liberais é de natureza persuasiva, uma terceira função se faz necessária, a função programa. Esta terceira função é responsável por introduzir elementos do cotidiano e da cultura popular no interior da estrutura mediadora. Essas mediações são realizadas por trabalhadores intelectuais como jornalistas, roteiristas, atores, músicos, cinegrafistas etc.

O trabalho do jornalista, que é o centro de nossa análise, é difícil de ser submetido a movimentos repetitivos, como no caso da fábrica fordista, ou de ser substituído por máquinas ou inteligência artificial, sofrer o processo de subsunção real. Nesse caso, a saída das empresas jornalísticas foi criar um conjunto de rotinas, procedimentos técnicos e éticos para evitar a idiossincrasia no material jornalístico, ou seja, diminuir o fator subjetivo na produção noticiosa(4).

BOLSONARO E O CAMPO JORNALÍSTICO
Estava claro, em 2018, que a primeira opção do capital, incluindo o capital midiático; seria Geraldo Alckmin (PMDB), mas sua candidatura não decolou. Enquanto isso, Bolsonaro, ex-estatista de direita, acenou para o mercado com a indicação do ultraliberal Paulo guedes como ministro da economia. É interessante notar a inflexão do discurso midiático na tentativa de normalizar Bolsonaro à medida que ficava claro que a candidatura tucana era, na verdade, um voo de galinha.

Os meios de comunicação, através do trabalho dos jornalistas, atuam na difusão ideológica basicamente como gerenciadores de consensos e das suas fronteiras(5). Não se trata de uma mera reprodução ideológica do discurso hegemônico. Há um conjunto de procedimentos textuais e de apuração, visando credibilizar um discurso que tende a defender ideias hegemônicas (função propaganda) ao mesmo tempo em que se pretende objetivo e imparcial. Os critérios de seleção, a ideologia do profissionalismo, apesar de suas contradições internas, tendem à defesa do status quo.

Na cobertura econômica e política de canais como Globonews ou mesmo em editoriais ou nas reportagens e textos noticiosos de jornais como a Folha de São Paulo há uma tentativa de separar a política econômica da pauta ideológica conservadora e obscurantista do governo Bolsonaro. Algumas críticas são feitas porque a verborragia presidencial atrapalharia o crescimento do PIB nacional(6).

As falas ultraliberais do Paulo Guedes, por exemplo, e as promessas de reformas passam a ser colocadas na esfera do consenso, como algo racional e para o “bem” de todos. Esse tema não chega sequer a ser objeto de discussão. Alguns absurdos ditos por Bolsonaro são colocados na esfera da controvérsia legítima, ou seja, o famoso procedimento de “ouvir os dois lados”.

Entretanto para colocar determinadas falas do presidente na esfera da controvérsia legítima era necessário expandir demais suas fronteiras, e é o que foi feito. Uma das táticas é defender sub-repticiamente que o cargo de presidente domesticaria o furor de seu discurso de extrema-direita.

A última esfera do consenso é aquela que determina o que não pode ser dito sobre hipótese alguma e não pode ser tolerado posto que é antidemocrático e/ou irracional. Também houve um alargamento dessa esfera pela imprensa, no caso, a partir do tratamento que é dado à oposição a Bolsonaro.

Política econômicas reformistas anticíclicas e heterodoxas foram colocadas no campo do radicalismo e consideradas populismo de esquerda no mesmo patamar, só que no extremo oposto, de falas preconceituosas e antidemocráticas do candidato Bolsonaro como a defesa da ditadura e todo tipo de ofensas a minorias. É a tese da “escolha difícil”(6) do Estadão, a escolha entre o Fascismo e um partido de esquerda cujo único extremismo do qual pode ser acusado é o extremo reformismo.

Esse gerenciamento das fronteiras do consenso pela grande mídia continuou com a separação fictícia entre os núcleos ideológico, econômico e militar do governo. Os dois últimos mereciam todo apoio enquanto o núcleo ideológico só atrapalharia Guedes e seus assessores segundo a imprensa.

O grande engano da imprensa é não entender que esse novo tipo de fascismo depende desse tipo de propaganda tosca e do choque para implementar suas reformas liberais e “economicamente racionais”. Está tudo interligado, e as últimas falas preconceituosas do Ministro Paulo Guedes dão mostras disso.

A imprensa vem sendo ataca por Bolsonaro há muito tempo, mas as reformas econômicas ultraliberais vem sendo tocadas. Todavia não seriam aceitas de outra forma que não fosse pelo emprego dessa propaganda que deixa todos envolvidos e polariza a sociedade de forma extrema. Atacar uma jornalista de forma machista, fazer insinuações sexuais sobre o trabalho dessa mesma profissional, atacar os conglomerados midiáticos está no script do presidente, pois só agindo “irracionalmente” Bolsonaro pode aplicar a racionalidade administrativa do mercado materializada nas reformas.

Logo essa indignação porque “agora” Bolsonaro passou dos limites é uma completa hipocrisia, mas há também um parco entendimento dos jornalistas sobre a conjuntura de como as reformas são tocadas e como a própria imprensa nos ajudou a chegar até aqui.

Os jornalistas pensam que a dinâmica do fluxo da comunicação segue a mesma dinâmica observada no século XX. Os grandes conglomerados de comunicação ainda possuem papel central, mas a extrema-direita consegue fornecer uma espécie de informação moderadora em relação aos conteúdos da grande mídia, uma propaganda que filtra as notícias para os seguidores desse grupo político.

Talvez daqui a cinquenta anos, em meio a uma convulsão popular em que os manifestantes lembrem a atitude covarde dos meios de comunicação, algum dos conglomerados midiáticos brasileiros venha a pedir desculpa pelo apoio às reformas do governo. Muitas vezes a história se repete como uma nova farsa sem sequer ter sido tragédia.

(1) Jornalista, Doutor em Sociologia. Membro do grupo de pesquisa Obscom/Cepos.

(2) DESCONTROLE Total. O Estado de São Paulo. 20 fev 2020. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,descontrole-total,70003203740

(3) BOLAÑO, César. Indústria Cultural, Informação e Capitalismo. São Paulo: Hucitec/Pólis, 2000.

(4) FIGUEIREDO, Carlos.. Jornalismo e Economia Política da Comunicação: Elementos para uma Teoria Crítica do Jornalismo. ÂNCORA – REVISTA LATINO-AMERICANA DE JORNALISMO, v. 6, p. 12-28, 2019.

(5) HALLIN, Daniel. We Keep America in the Top of the World. Television Journalism and the Public Sphere. London: Routledge, 1994.

(6) ESCOLHA muito difícil, Uma. O Estado de São Paulo. 08 out 2018. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,uma-escolha-muito-dificil,70002538118

(7) BORDUNA na Carta. Folha de São Paulo. 5 set 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/09/borduna-na-carta.shtml

Uma “raça em extinção” que resiste

Por Manoel Dourado Bastos*

Todo apoio à greve dos jornalistas da Folha de Londrina

Os jornalistas remanescentes da Folha de Londrina paralisaram suas atividades no dia 13 de janeiro de 2020 para exigir o pagamento integral do décimo terceiro e dos salários de dezembro de 2019, além de exigirem mais transparência nas contas da empresa. Trata-se de mais um capítulo de um processo que se arrasta desde novembro, quando a empresa anunciou que demitiria 25% dos jornalistas no bojo de uma pretensa reestruturação do jornal, que contou também com a adoção de um novo formato de publicação. A greve dos jornalistas da Folha de Londrina conseguiu 100% de adesão e se mostra como uma reação adequada dos trabalhadores diante da ineficácia dos gestores da empresa.

Assombrados com a crescente e vertiginosa queda de vendas avulsas e assinaturas, bem como com novas diretrizes impostas pelo governo Bolsonaro, que eliminou por Medida Provisória em agosto de 2019 a obrigatoriedade da publicação em jornais impressos dos balanços das empresas de capital aberto, os gestores da Folha de Londrina passaram a atirar para todos os lados. Ainda impactados com a medida provisória de Bolsonaro, que justificou a ação ironicamente  como uma retribuição ao que classificou como ataques a ele da “imprensa de papel”, os gestores da empresa promoveram uma campanha publicitária em favor da liberdade de imprensa, que foi alvo de diversos ataques dos apoiadores do presidente, cuja candidatura foi apoiada em diversas colunas do jornal.

Ao que tudo indica a empresa não conseguiu grandes resultados financeiros com sua ação publicitária, de maneira que partiu para cima da folha de pagamentos. Ao anunciar o plano de demissão de dez jornalistas, contrariando o acordo coletivo de trabalho que classifica uma ação dessa monta como demissão em massa, os gestores da Folha de Londrina justificaram o processo afirmando que, assim, viabilizariam o pagamento em dia do pessoal. Encontraram onze jornalistas dispostos a serem demitidos, desgastados física e espiritualmente com as condições cada vez mais degradantes e as ameaças ao futuro profissional.

A empresa, contudo, não cumpriu com o acordo demissional, protelando o pagamento da verba rescisória em dez parcelas a partir de abril de 2020. Além disso, deixou os jornalistas remanescentes sem 13º e pagou, no início de janeiro, apenas um terço do salário de dezembro. Os jornalistas reagiram e cobraram o pagamento integral dos salários e do 13º, sob a ameaça de uma paralisação. Diante dessa ação assertiva dos jornalistas, a empresa depositou mais 25% dos salários, o que não foi suficiente para debelar a paralisação. A exceção de editores e estagiários, a totalidade dos jornalistas da Folha de Londrina não trabalharam no dia 13 de janeiro.

Nestes termos, a crise da Folha de Londrina se apresenta como um problema trabalhista, mas sabemos que o buraco é mais embaixo. A Folha é o último jornal impresso da cidade. Esta, que não é uma situação circunscrita a Londrina, se tornou mote enviesado dos constantes golpes desferidos por Bolsonaro à imprensa. Já na primeira semana de 2020, Bolsonaro atacou novamente os jornalistas, ao acusá-los de mentir e desinformar, apontando-os como uma “raça em extinção” a ser vinculada ao Ibama. O sarcasmo presidencial tem afinidade com o ataque dos gestores da Folha de Londrina à folha de pagamentos, visto que ambos despejam sobre os jornalistas problemas originados em outra ordem. O problema trabalhista desta “raça em extinção” é, na verdade, uma crise do jornalismo como forma social da comunicação.

A fuga crescente de anúncios e recursos do bolo publicitário, o extensivo uso de novos meios para a propaganda dos agentes políticos e o interesse do público pelos meios digitais fazem com que o jornal impresso perca seu posto como um mediador decisivo. O fechamento de jornais impressos ou a migração para plataformas digitais é acontecimento corriqueiro. Infelizmente, os jornalistas se tornam a vítima preferencial desse processo. Não bastasse o medo diante das demissões frequentes dos jornais impressos em falência, a degradação das condições laborais nas redações de publicações online é outro fator de ataque aos jornalistas.

Enfrentar essa crise passa longe de ataques aos jornalistas e a precarização de suas atividades. É verdade que as funções cumpridas pelo jornal impresso têm encontrado novos meios que, contudo, são expressões de mudanças estruturais da forma social da comunicação. Ao reagirem, por sua vez, os jornalistas encontram dificuldades em buscar tão somente o retorno às estruturas formais da comunicação em ruína. Tornados alvos principais da crise, se reconhecem como trabalhadores e, com isso, podem passar a exigir um mundo completamente novo. Assim, a “raça em extinção” encontra aquilo que devia ser seu fundamento, a liberdade de escrever os acontecimentos.

Todo apoio à greve dos jornalistas da Folha de Londrina!

* Professor do Mestrado em Comunicação  da Universidade Estadual de Londrina e dos cursos de Especialização em Comunicação Popular e Comunitária e Especialização em Comunicação e Cultura Política da mesma universidade.

 

O monopólio de transmissão da Globo na transmissão da Copa do Mundo FIFA Rússia 2018

 

 

Por Anderson David Gomes dos Santos*

 

Depois de duas Copas do Mundo FIFA transmitidas em TV aberta pela Rede Globo e pela Band, a emissora da família Marinho voltou a transmitir com exclusividade um mundial de futebol masculino. O problema do mercado se apresentou de forma transparente a quem acompanhou o torneio no Brasil, “refém” da voz de Galvão Bueno nos jogos da seleção canarinha – num país com cada vez mais pessoas “pistolas”.

Para além de gostar ou não do narrador principal da Globo desde 1992, a questão a ser discutida vai além dele. É preciso entender a partir de dois pontos de análise: a construção da liderança do Grupo Globo no mercado comunicacional brasileiro; e a negociação dos direitos de transmissão dos torneios FIFA.

Liderança da Globo
O Grupo Globo se constitui a partir do jornal O Globo na década de 1920, parte para as rádios nos anos 1940, consolidando-se especialmente a partir da rede de emissoras de televisão desde 1965, que se aproveitou da conjuntura político-econômica para impor barreiras de liderança num momento de profissionalização da Indústria Cultural brasileira.

Consideramos aqui a importância do grupo, para além da rede de TVs, porque ele se constituiu com pulverização de mídias em que atua, o que é importante em termos de mercado para a aquisição de alguns serviços/programas e contratação de trabalhadores, pois tem mais possibilidades de atuação ou espalhamento e teste de programação. É assim, por exemplo, que esportes diferentes têm seus direitos de transmissão contratados pelo grupo. Os eventos podem ser exibidos em algum domingo no Esporte Espetacular; por algum dos canais SporTV; pelo Globoesporte.com, ou por todas essas plataformas.

A iniciativa da Rede Record de concorrer com a Globo a partir de 2007 nos direitos de eventos esportivos, adquirindo temporariamente alguns eventos de judô, no processo de transmissão exclusiva dos Jogos Olímpicos de verão e inverno, foi algo temporário justamente porque a oferta multiplataforma garante transmissão desses esportes, independentemente de grade de programação e, o principal, alguma visibilidade em horários líderes de audiência na TV aberta.

De lá para cá, a concorrência com outras plataformas foi intensificada no século XXI, o que Valério Brittos denominou de Fase da Multiplicidade da Oferta. A resposta do Grupo Globo foi se reposicionar nos diferentes setores da Indústria Cultural, priorizando a liderança na produção audiovisual, independente do meio de comunicação em que exibe seus programas, como comprova a campanha publicitária atual, que retrata a preocupação com os “100 milhões de uns”.

As concorrentes na TV aberta não acompanharam as mudanças, tendo dificuldade, inclusive, de conseguir algo a mais para estarem presentes na TV fechada. Há um impacto econômico que afeta a maioria delas. É também devido a isso que na TV aberta a Rede Globo passou a exibir jogos de futebol de forma exclusiva, pois não havia sublicenciada que pudesse pagar para transmiti-los – e se a Record pode, a Globo não repassa, devido ao histórico de disputa da década anterior.

Relação Globo-FIFA
Mas no caso dos torneios da FIFA, parte dessa história não conta. A entidade internacional proprietária do football association tem uma espécie de “parceria histórica” com a líder do mercado comunicacional brasileiro, termo que normalmente a Globo usa para justificar sua pretensa superioridade quando depende de algo para além do econômico.

Não há qualquer processo licitatório quanto aos principais torneios de seleções da FIFA para a exibição no Brasil. Para além da possibilidade de conseguir mais dinheiro, é preciso considerar que o resultado das investigações do FBI, que vieram à tona a partir de 2015, indicaram que os dirigentes das duas confederações das Américas usavam as negociações com empresas de marketing esportivo e os grupos de mídia omo objeto de corrupção.

Para se ter ideia, ainda em 2012, o Grupo Globo já anunciava deter os direitos de transmissão audiovisual das Copas do Mundo FIFA de 2014, 2018 e 2022 para todas as mídias, mas sem divulgação de valores. Não houve sequer a preocupação, no caso daqui, em analisar se haveria propostas específicas para transmissões em outros meios, separando os pacotes de transmissão, como outros torneios fazem e a maioria dos tribunais em prol da concorrência defendem.

Esse é um ponto importante de se relatar a partir de outros casos recentes. A criação dos canais Fox Sports em 2012 fez com que o Grupo Globo precisasse entrar em um acordo para seguir transmitindo a Taça Libertadores da América nos canais SporTV e ter mais opções de escolha na TV aberta, já que o grupo Fox Sports adquiriu há mais de duas décadas os direitos do torneio para a América Latina. Em troca, os canais da Newscorp ganharam o direito de exibir as duas edições seguintes de Copa do Mundo FIFA e a Copa do Brasil, além de ficar com VTs de jogos do Campeonato Brasileiro. Produtos até então transmitidos com exclusividade pelo SporTV (Globosat) na TV fechada.

Outro exemplo a ser lembrado é o anúncio da desistência da Rede Globo em concorrer pelo pacote de TV aberta do triênio 2018-2019 a 2020-2021 dos jogos da Liga do Campeões da Europa, principal torneio interclubes do mundo, cujo resultado foi anunciado durante a realização da Copa. A desistência se deu porque, apesar de bons resultados da audiência, a transmissão pela Globo dava destaque a um conteúdo cujo poder de escolha no Brasil é dos canais Esporte Interativo (Turner/WarnerMedia), levando público para o concorrente na TV fechada e que transmite os jogos num serviço de streaming (EI Plus). Quem ficou com o pacote de exibição gratuita foi o Facebook, que luta com Amazon e Twitter por uma série de direitos de transmissão de eventos esportivos no mundo, mas com atuação até aqui restrita a ligas de outros esportes no Brasil.

Assim, o problema de só ouvirmos a narração de Galvão Bueno na TV aberta é mais uma questão de mercado que de meritocracia ou qualquer coisa do tipo. Inclusive, podemos apontar como resultado dessa Copa do Mundo FIFA Rússia 2018 o grande destaque a Luís Roberto, que adaptou sua forma de transmitir e mobilizou muitos elogios na empresa e nas mídias sociais; além da contratação de Gustavo Villani, vindo do Fox Sports. Ambos podem ser pensados como substitutos de um Galvão Bueno, de 67 anos, cuja voz precisa ser cada vez mais poupada.

PS: Importante destacar que esta Copa teve pela primeira vez no Brasil toda uma equipe de transmissão de mulheres para partida do Brasil, obra da Fox Sports. Além disso, a demarcação da resistência das jornalistas esportivas brasileiras por respeito ao trabalho exercido. Se o machismo está incrustado na nossa sociedade, especialmente nas esferas do trabalho, o jornalismo esportivo acrescenta situações ainda mais absurdas. Esse tema mereceria outro texto, por isso tratar aqui apenas rapidamente, mas sem deixar de apresentá-los como legados desta Copa do Mundo FIFA.

* Anderson David Gomes dos Santos é professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília e membro do grupo de pesquisa OBSCOM-CEPOS.

Mídia no Brasil: legislação permissiva e ineficaz

Por Daniel Fonseca* (O Povo)

O Brasil tem uma frágil legislação sobre a propriedade da mídia, o que é agravado pela falta de transparência e de controle social, o que torna quase letra morta o marco regulatório da radiodifusão, do jornalismo impresso e da Internet (portais). Esses temas são o foco da pesquisa de Monitoramento de Propriedade da Mídia (quemcontrolaamidia.org.br).

Algumas das maiores demandas, hoje, são a atualização de normas, o controle de informações e a fiscalização do cumprimento das leis. Essas lacunas comprometem a responsabilização e a penalização no caso de desobediência às exigências previstas em relação à propriedade, à garantia da pluralidade e da diversidade e ao respeito aos direitos humanos.

A própria Constituição veda monopólio e oligopólio, mas não teve qualquer efeito prático nos últimos 30 anos. Ainda que exista um capítulo específico sobre Comunicação, grande parte não foi sequer regulamentada. Outra porção, mesmo tendo lei ordinária correspondente, não tem consequência efetiva.

O Decreto-Lei 236/1967 limita em 10 as outorgas para TV aberta no País, mas isso é ignorado em acordos privados de “afiliadas”. No rádio aberto, existem limites para cada modalidade, em geral também desrespeitados.

O Código de 1962 segue vigente como a legislação central da radiodifusão. As leis das Telecomunicações (1997) e da TV Paga (2011) não chegaram a alterar os alicerces em que atuam os maiores grupos de mídia.

Há, ainda, deficiência na aplicação das legislações sobre as verbas de propaganda estatais, os horários “gratuitos” por partidos políticos e mesmo o relevante setor das telecomunicações (telefonia, Internet e TV paga). Estas atividades também influenciam a propriedade das demais mídias.

Para completar, o Estado, como ente regulador, também tem sido incapaz em manter-se “equidistante” diante daqueles agentes que deveria fiscalizar e sancionar. Cerca de 40 congressistas são radiodifusores, mantendo a contaminação de interesses que caracteriza o chamado coronelismo eletrônico.

Por isso, é sintomático, mas nada surpreendente, que venham do “mercado” (externo) as maiores ameaças às empresas nacionais: gigantes como Google, Facebook, Amazon e AT&T têm feito até a Globo se mexer. 

Talvez tenha chegado o momento de a estrutura das comunicações mudar no Brasil, mas o cenário que se aponta pode ser ainda pior do que o atual.

Doutor em Comunicação (UFRJ), é jornalista e funcionário da UFC