Considerações sobre o Pan na TV brasileira

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Por Anderson David Gomes dos Santos*

Estamos na reta final de mais uma edição de Jogos Pan-Americanos. Em meio a uma série de medalhas brasileiras, num evento níveis abaixo dos Jogos Olímpicos de Verão, temos outra exceção à regra quando tratamos de direitos de transmissão em TV aberta no Brasil, pois a exclusividade aqui não é da Rede Globo, e sim da Rede Record.

O Pan-Americano veio na onda de tentativas de disputa por parte da emissora de Edir Macedo, que resolveu ser concorrente neste mercado a partir de 2006. Se nos torneios nacionais de futebol pouco conseguiu – e ainda assim apenas por alguns anos, caso da UEFA Champions League –, os eventos esportivos gerais ficaram por mais tempo, causando problemas ao Globo Esportes, braço do Grupo Globo responsável por isso, pois a direção vira certo menosprezo ao que a Record poderia oferecer, tendo em vista que as barreiras com as instituições olímpicas não são tão fortes quanto às firmadas com as confederações de futebol.

Acompanhamos o processo de transmissões por gosto, já que em 2010 ainda não pesquisava esportes, e por obrigação do ofício a partir de então. Vancouver representou uma surpresa porque a Record deu uma cobertura de Olimpíadas para o torneio de esportes de inverno, a maioria pouco conhecidos no Brasil, tendo sucesso aproveitando as tardes, horário ainda hoje de grande problema para encaixar um programa. Em compensação, 2012 marcou certa decepção aos telespectadores, pela manutenção da grade de programação em detrimento ao principal torneio esportivo do mundo, realizado aquele ano em Londres. Oficialmente no 12º de seus 17 dias (mais três antes da abertura para os jogos de polo aquático), não se leu até agora notícias de que a emissora paulista tenha conseguido números relevantes, como nos dois eventos anteriores.

Toronto 2015

Verificando o calendário de programação, o susto ao ver no site do grupo, o R7, que nenhum evento seria transmitido pela Record, apenas pela Record News, no último domingo (20). Só à noite é que, zapeando pelo Domingo Espetacular, soube que uma partida do futebol feminino seria exibida. Muito pouco para um dia em que a Globo tem Esporte Espetacular pela manhã e jogo à tarde. Com a Band com programa esportivo pré e pós-jogo e até a TV Brasil tem jogo no início da noite e dois programas esportivos, no início da tarde e após a partida da Série C.

A título de comparação, o domingo anterior na Record foi preenchido do final da manhã à tarde com programação do Pan, entre apresentações da ginástica artística, saltos ornamentais, as finais do judô e uma partida de futebol masculino no final da noite. De muito a quase nada em uma semana, mantendo a programação de domingo marcada por Geraldo Luís e Rodrigo Faro.

Segundo o narrador da partida que o Brasil empatou com o Panamá por 3 a 3 no futebol masculino, dia 20, seriam 40 horas alcançadas até ali, em 10 dias de competição, uma média de 4 horas por dia, que imagino que seria tranquila de encaixar na grade diária da Globo, o que é um prejuízo para o apaixonado por esportes, que vê nestes eventos de duas semanas uma representação do paraíso.

Dos esportes coletivos, além do espaço tradicional ao futebol, em suas duas modalidades, privilégio também às seleções de vôlei de quadra. Em compensação, quase nada ao vivo do vôlei de praia, de importantes resultados desde a década de 1990, e menos ainda do basquete feminino, que se encerrou na segunda-feira (20).

É importante a Record lembrar ainda que se em 2012 a concorrência fora com o Sportv, com direito a Galvão Bueno cedido para a narração, os Jogos Olímpicos de Verão Rio 2016 terão transmissão também de Globo e Band. O Pan de Toronto é fundamental para estabelecer a emissora como canal dos esportes olímpicos – não a subsidiária Record News, que funciona em UHF.

Do que pude acompanhar, em meio a atividades de pesquisa e da construção de uma (necessária) greve docente¹, a primeira percepção é certa falta de costume em transmissões esportivas. Ainda que sejam feitos uma série de testes antes, a falta de um maior cardápio de transmissão esportivas entre eventos prejudica uma melhor prática e entrosamento entre narradores e comentaristas – para além da visível falta de tato com os esportes de quem foi escolhido pela Organização Deportiva Pan-Americana (Odepa) para gerar as imagens do torneio, com direito a momentos sem abertura de sinal e erros de cortes. Análise mais empírica e individual que científica.

É importante frisar que aí pesam as barreiras de mercado estabelecidas pela líder, que detém os direitos de exibição de vários esportes, seja pelo Esporte Espetacular ou pelo seu canal de TV fechada, ainda que simplesmente para que nenhuma concorrente transmita o torneio – com raras exceções, como foi o Mundial de Handebol feminino conquistado pelo Brasil em 2013 que, por desinteresse, foi transmitido de forma exclusiva pelo Esporte Interativo, que perderia os direitos do mundial de 2015 para o Sportv.

Sobre a Globo, ao contrário de 2012, em que chegou a exibir imagens olímpicas mesmo sem adquirir os direitos de transmissão, a emissora manteve a decisão de não pedir o repasse dos vídeos da concorrente, que viriam com a logomarca dela, optando por fotos. Em termos de relato, além de cobrir a locução com as fotografias, um aposta nas histórias dos vencedores – há 3 anos, os patrocinadores dos atletas pediam para que eles saíssem da vila olímpica para as entrevistas com a líder do mercado nacional de TV.

Neste quesito, interessante notar que o modelo usado não é o do que eu chamado de “jornalismo ousadia e alegria”, marca do recém saído do jornalismo esportivo Thiago Leifert em São Paulo, mas algo que busca algum elemento da história de vida do atleta para indicar algum tipo de superação, trazendo o “mito” dos esportes lado a lado dos homens e mulheres que veem a matéria. Algo que, por sinal, eu gosto.

2015 é ainda mais importante porque deve ser o da licitação para o próximo ciclo olímpico, marcado pelos Jogos de Inverno de Pyeongchang (Coreia do Sul), em 2018, e os Jogos de Verão de Tóquio (Japão), dois anos depois. O Comitê Olímpico Internacional considera a maior oferta, mas também as condições de transmissão, como a maior presença do conteúdo olímpico na programação.

Resta acompanhar os demais dias de competição, não acreditando tanto na “programação na TV” do R7 – que nada aponta na Record para a quarta-feira (22), por exemplo – e esperar pelas exibição tripla em 2016, algo difícil de ocorrer nos anos 2000 pela TV aberta no Brasil.

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¹ Como não é necessariamente posicionamento do Grupo CEPOS ou do Portal EPTIC, ainda que as colunas sejam assinadas de maneira individual, exponho em nota o repúdio ao corte de R$ 9,4 bilhões da educação, com cortes severos em várias esferas das universidades federais (das bolsas de pesquisa de IC às verbas de custeio de PPGs). Admitindo a evolução nos últimos 13 anos – ainda que trabalhando numa unidade de campus do interior que há 5 anos espera por um prédio próprio –, a “Pátria Educadora” corta dos setores fundamentais para aumentar em R$ 300 bilhões (1,3 trilhão, no total) o valor pago como juros da dívida (o famoso, mas pouco explicado, superávit primário), além de vender títulos da União para manter o pagamento para as universidades privadas, em ritmo de forte concentração internacional do mercado, via Fies.

* Anderson Santos é professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), jornalista graduado em Comunicação Social pela UFAL e mestre em Ciências da Comunicação pela UNISINOS, membro do grupo de pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS).