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    César Bolaño at |

    Caro Bernardi. Aproveito teu interessante artigo para retomar um aspecto do que eu publiquei na última Coluna Cepos, sobre Covid-19, fazendo uma crítica marxista a uma interpretação pós-modernista do problema. Da mesma forma, como você bem aponta, que a nova esfera pública global, da internet e das plataformas sociais, não representa mais que a consequência da expansão da forma publicidade e da mercantilização da cultura, contra as formas comunitárias de organização social, ou ainda, da transição, já bem avançada, da regulação estatal (keynesiana) para outra mais mercantil (neoliberal) das relações sociais, de acordo com a lógica e os interesses do grande capital, o tratamento do problema posto pela pandemia global não revela outra coisa. Uma centena de laboratórios privados se encontram hoje em concorrência, em nível global, pelas rendas de monopólio que as patentes de remédios, vacinas e tratamentos poderão garantir para os que chegarem primeiro na disputa. Todas as condições da existência, toda a vida e todas as formas de vida estão submetidas à lógica da concorrência e da valorização do capital. A pandemia não representa a democratização da necro-política, como chegou a aventar Mbembe, numa entrevista que cito no artigo referido acima, mas, ao contrário, trata-se de um aprofundamento das formas mercantis de controle social. Isto pode ser entendido à maneira de Foucault (bio-poder), mas eu prefiro recorrer ao trabalho fundamental de Polanyi (A grande transformação), que utilizei em outro texto, não faz muito tempo, onde ele mostra como o liberalismo do início do século XX gestou as condições que levaram à catástrofe. Não é apenas a gripe espanhola que serve como termo de comparação para a crise atual, por conta da pandemia, pois os frutos malévolos do neoliberalismo já romperam a casca do ovo e rastejam diante de nossos olhos.

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      GUILHERME BERNARDI at |

      Olá, professor César Bolaño. Muito interessantes os apontamentos e os paralelos que podem ser traçados entre as duplas gripe espanhola-liberalismo e coronavírus-neoliberalismo. Confesso que não havia exatamente relacionado as duas e os dois momentos, apesar de já ter lido sobre as situações. Li seu artigo recente criticando o Han e outras abordagens pós-modernistas e estou totalmente de acordo com as críticas, principalmente às leituras que veem algo muito novo e de alguma forma “universalistas”/democratizantes na pandemia e na saída dela pela via de uma nova organização social que parece não ter o capitalismo como centro do problema.

      Espero desenvolver o assunto (aprofundamento da mercantilização da organização da vida e sua relação com a internet e as formas publicidade e propaganda) em minha dissertação, sob orientação do professor Manoel Dourado Bastos, focando na “crise”/desaparecimento/esgotamento de um tipo de regulação fordista, a ascensão do neoliberalismo, da financeirização da economia e o “papel” da internet nelas. Polanyi aparece bastante no livro do Arrighi que acabamos de ler (O Longo Século XX) e que pode vir a entrar na sequência das leituras, que agora estão no Robert Brenner (The Economics of Global Turbulence e O Boom e a Bolha).

      Enfim, vejo seu comentário como um sinal de que estamos trilhando um bom caminho de pesquisa e de análise. Agora é continuar nele e desenvolver o tema!

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