Lalo Leal: Comunicação eletrônica padronizada e conservadora rema contra o Brasil

laloleal_eptic_obscom_entrevista“O Brasil possui uma comunicação eletrônica padronizada nos moldes mais atrasados, mais conservadores e sempre com propostas antipopulares. A Rede Globo não está aí por acaso, ela ocupou um espaço deixado de lado pelo Estado brasileiro desde a formação desse mercado”, avaliou o pesquisador Laurindo Leal Filho, ao fazer balanço dos atos realizados contra a Rede Globo neste último dia 26 de abril. Segundo ele, podemos definir que a comunicação eletrônica da forma que se consolidou rema contra o Brasil.

“A Rede Globo ocupou um espaço e até hoje nenhum governo brasileiro teve coragem de reorganizar esse setor, que é público. Esse movimento, por exemplo, poderia abrir espaço para fortalecer e fomentar a comunicação pública”, destacou.

Proposta alternativa

Lalo Leal, que comanda o programa VerTv, exibido pela TV Brasil, destaca duas vias possíveis para se democratizar a comunicação no país. “Existem dois caminhos principais. O primeiro é a regulação, ou seja, o Estado abrir espaço para que outras vozes possam falar também. O segundo é fortalecendo a comunicação pública, precisamos ter uma comunicação de conteúdo alternativo ao que até então foi apresentado“, sinaliza.


Ele ainda destacou um terceira via. “Também precisamos ter em mente a importância de se fortalecer os movimentos alternativos nas redes. A internet é um espaço imenso e o movimento de blogueiros tem sua presença. Esse movimento carece de mais atenção por parte do Estado”, defendeu.

Congresso conservador

Ao refletir sobre as contradições e lutas no seio do Congresso Nacional mais conservador desde 1964, Laurindo Leal ponderou que “o país já viveu momentos melhores que o atual. Infelizmente, nesse Congresso atual dificilmente seria aprovada uma lei que regulasse o sistema de comunicação. Em outros momentos também, mas no atual isso ainda fica mais difícil”.

Para ele, era difícil e ficou pior, porque no Congresso se combinam vários interesses empresariais. Primeiro, os interesses empresariais da própria mídia, são inúmeros os parlamentares que são proprietários de concessões. Isso sem falar dos interesses dos latifundiários e das organizações religiosas, que acabam se combinando com os primeiros.

“Colocar no Congresso Nacional, hoje, uma lei de meios é algo muito difícil. Porém, são dificuldades que nos tornam mais fortes. Penso que a Campanha para Expressar a Liberdade é importante, pois além de propor um projeto de lei de iniciativa popular, ela promove o debate em torno do tema. Só isso, já vale a luta e mobilização em torno dessa importante bandeira”, explicou Lalo durante a entrevista.

Fonte: Rádio Vermelho

Luciano Martins: A imprensa e a terceira via

Por Luciano Martins Costa*, no Observatório da Imprensajulia1

O tema é tratado nesta quinta-feira (21/5) por dois destacados colunistas. Um deles, Merval Pereira, escreve no Globo. O outro, José Roberto de Toledo, publica no Estado de S. Paulo. Embora este observador não costume citar nomes, mesmo quando analisa textos específicos, a circunstância aponta a conveniência de identificar os autores, porque o assunto provavelmente irá dominar a crônica política nos próximos meses, talvez nos três anos que nos separam da campanha presidencial de 2018.

O pano de fundo é a operação de guerra conduzida pela imprensa hegemônica, com o propósito de isolar e fragilizar a atual presidente da República e, ao mesmo tempo, atacar ininterruptamente a reputação do ex-presidente Lula da Silva, que é tido como provável candidato ao Planalto na próxima eleição. O grande destaque dado a sucessivas manifestações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a última delas dominando o programa de seu partido, o PSDB, na televisão, é parte desse processo.

Como já se afirmou neste espaço (ver aqui), a análise diária do noticiário político e sua extensão lógica – as escolhas da imprensa entre os fatos da economia – aponta claramente o propósito de manter sitiada a presidente Dilma Rousseff, nem que para isso seja necessário dar apoio ao senador Renan Calheiros e ao deputado Eduardo Cunha, dirigentes do Congresso Nacional visados pela Operação Lava-Jato. Mas essa pressão é controlada no limite da governabilidade, porque a mídia tradicional não pode contrariar o chamado setor produtivo, que tem interesse no plano de ajuste proposto pela presidente.

O nome do jogo é manipulação, mas esse é um aspecto tão explícito que sua observação não representa um desafio instigante: o leitor crítico enxerga isso com a simples visão das manchetes. Para entender metade da história, basta ler o editorial publicado pelo Estado de S. Paulo na quarta-feira (20/5), intitulado “O pesadelo de Lula” (ver aqui).

O texto pode ser considerado um clássico do lacerdismo, que passou a marcar a linguagem da imprensa brasileira a partir da ascensão dos “pitbulls” ao panteão do jornalismo. Escrita em chulo – a novilíngua que caracteriza o jornalismo predominante no Brasil -, e sem a verve que marcava as diatribes de Carlos Lacerda, essa  declaração explícita de engajamento partidário funciona como ancoragem para o discurso do veterano líder tucano na TV.

Tecendo a rede

Um filósofo diria que ambos – o editorialista, em nome do jornal, e o político-sociólogo, em nome da fração da sociedade representada por seu partido – personificam o cinismo em estado clássico, ou seja, a alienação em relação à sociedade como um todo, ou a construção de um mundo à parte da política. Esse mundo particular é regido por uma ética muito conveniente, na qual os malfeitos do poder têm um calendário especial: segundo esse calendário, a corrupção nasceu em 2003, quando Lula da Silva assumiu a Presidência da República em primeiro mandato.

Voltando aos dois colunistas citados, por que seus textos marcam de maneira tão clara o próximo episódio na disputa partidária que estimula radicalismos e divide de maneira tão visceral a sociedade brasileira? Porque os dois avançam na observação do cenário retratado pela imprensa hegemônica e apontam para um horizonte em que se torna propício o surgimento de uma terceira opção aos dois polos em torno dos quais se adensam as forças políticas. Na opinião dos dois autores, PT e PSDB correm o risco de morrer abraçados em 2018.

Tanto Pereira quanto Toledo se referem ao fato de que, ao se engalfinhar com o PT, o PSDB perde apoio de muitos de seus eleitores, porque os correligionários tradicionais dos tucanos “não se reconhecem mais no radicalismo assumido”, segundo Merval Pereira. Pode-se acrescentar que, alinhando-se com as forças mais reacionárias do espectro político, o PSDB se desfigura aos olhos do cidadão politicamente educado que apoia a socialdemocracia. Já o jornalista do Estado de S. Paulo pondera que 66% dos brasileiros não têm preferência partidária – apenas 14% votam firmemente no PT, e o PSDB tem o suporte incondicional de apenas 6% dos eleitores.

Os dois colunistas enxergam um cenário favorável ao surgimento de uma “terceira via”. Merval Pereira vislumbra uma candidatura do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e cita, mais à direita, o senador Ronaldo Caiado e o deputado Jair Bolsonaro. José Roberto de Toledo afirma que “há espaço de sobra para quem souber contar uma história nova e convincente”. Nenhum dos dois se lembrou da ex-senadora Marina Silva, que tece sua rede longe do barulho da mídia.

*Luciano Martins Costa é jornalista.