“Essa cidadania, e como ela é tematizada na programação [da Globo], configura-se como prática capitalista”

JLD

Os pesquisadores da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura no Brasil trataram de análises gerais ou particulares partindo das indústrias culturais, desenvolvendo estudos específicos como a Economia Política da Televisão – representada por livros como “Mercado Brasileiro de Televisão” (BOLAÑO, 1988/2004) e a produção de Valério Brittos – e a Economia Política da Internet, desenvolvida a partir do Observatório de Economia e Comunicação (OBSCOM/UFS) e que gerou duas edições de uma obra com este título.

Nos últimos anos, na Universidade Federal do Piauí, a professora Jacqueline Lima Dourado assumiu o desenvolvimento da Economia Política do Jornalismo, cujo ápice foi a realização do Seminário Internacional de EPJ, em 2012, que gerou a publicação, no ano seguinte, do livro organizado com o mesmo nome da área em que se situa e com o subtítulo “campo, objeto, convergências e regionalismo”.

Líder do Grupo de Pesquisas em Comunicação, Economia Política e Diversidades (COMUM/UFPI), professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação PPGCOM/UFPI (Mestrado) e chefe de Departamento de Comunicação Social (DCS-CCE) da Universidade Federal do Piauí, em entrevista ao jornalista Anderson Santos do Portal EPTIC, Jacqueline trata da EPJ, dos trabalhos desenvolvidos no COMUM e comenta o livro de sua autoria, “Rede Globo: mercado ou cidadania”, publicado em 2010 – com segunda edição em 2012 –, que traz como proposta metodológica a análise da grade transversal.

Portal EPTIC – Uma das novidades nos estudos da EPC no Brasil nos últimos anos foi a sua proposição de uma Economia Política do Jornalismo, com artigos, um evento e um livro sobre o tema. O que a motivou a criar esta especificidade a partir desse eixo teórico-metodológico?

Jacqueline Lima Dourado – A necessidade do Programa de Pós-Graduação em Comunicação de centrar esforços em jornalismo. A nossa linha de pesquisa é “Processos e práticas em jornalismo”. Nesta linha o jornalismo é investigado a partir da análise crítica de seus processos e práticas dentro de sistemas produtivos de significações, tendo como referentes: a relação com os discursos sociais, a memória e a história, a economia política do jornalismo, os impactos sociais da atividade jornalística e sua inter-relação com as tecnologias. Foca o papel do jornalismo na construção do espaço público, na produção de visibilidades, na legitimação de instituições e nas transformações decorrentes da disseminação das Tecnologias da Informação e da Comunicação nas sociedades contemporâneas. Esta linha comporta pesquisas que investiguem o jornalismo em seus aspectos de regionalização e globalização, em questões relacionadas ao poder e à formação de hegemonias, gêneros, formatos, linguagens, técnicas e tecnologias jornalísticas e políticas (de mercado, públicas e editoriais).

EPTIC Outra novidade originada no Piauí a partir de você é o grupo de pesquisa que lidera, o Comunicação, Economia Política e Diversidade (COMUM), que articula um olhar sobre a produção de conteúdos televisivos regionalizados.

JLD – Estamos detendo o nosso olhar nos processos de regionalização. Os grupos empresariais regionais estão se organizando e marcando espaços por meio de grupos midiáticos. Estes grupos vêm impondo regras de mercado, agenda política, entre outros. Estamos orientando dissertações nesse sentido.

EPTIC – Em 2011, você lançou o livro “Rede Globo: Mercado ou Cidadania?”, oriundo da sua tese orientada pelo professor Valério Brittos na UNISINOS. Então, qual o interesse mercadológico do Grupo Globo em manter espaços voltados à construção de cidadania, mesmo que isso possa aparecer como uma contradição, dado seu histórico de relações de poder?

JLD – Procurei nesta pesquisa fazer um estudo de como o tema cidadania está dissolvido por toda a grade de programação da Rede Globo de Televisão. Observei como acontece a seleção dos temas, gêneros dos programas e a relação com as várias agendas. Trabalhei uma metodologia que denominei grade transversal de programação para melhor observar conteúdos veiculados. E com base nessas investigações metodológicas cheguei a algumas conclusões com relação à construção da cidadania na programação e às contradições históricas da empresa. São elas:

– Em geral, a programação global trabalha os temas sociais por meio da inclusão de personagens, que repetem modelos de comportamento normatizados pela moral vigente, embora em alguns momentos tenha-se a impressão de ruptura, o que não avança para se tornar concreto. Na imensa maioria das vezes, esse fato é justificado pela rejeição da audiência, que não está preparada para assistir na tela a situações que são parte da vida real;

– A Rede Globo se auto-referencia como local de encontro da cidadania na sua programação. Isso reflete a posição da emissora como conformadora de um espaço público, pelo qual os cidadãos participam, em alguma medida, do debate sobre as questões sociais. Um espaço público que, como tal, se caracteriza por promover o exercício da cidadania, apesar das precariedades, advindas do fato de ser organizado por um agente privado;

– Essa cidadania, e como ela é tematizada na programação, configura-se como prática capitalista, ou seja, é uma forma de administração do capital. O capitalismo, como qualquer sistema, mesmo que seja injusto, não pode ser só censurável de forma contínua, caso contrário não haverá adesão ao sistema. Tem que oferecer minimamente um rol de vantagens para combater a exclusão ao próprio modelo e ajudar a mantê-lo ou superá-lo. No que concerne às políticas de redistribuição de renda para a manutenção do capitalismo, a própria cidadania é engajar no sistema. Se a ideia da cidadania é isso, pode servir para melhor gerir o sistema e então a cidadania global estará cumprindo seu papel;

– Ao se questionar o posicionamento da Rede Globo frente à nova configuração capitalista contemporânea das indústrias culturais, concluiu-se que a emissora colabora para a manutenção do sistema capitalista contemporâneo do qual faz parte, enquanto produtora e distribuidora de produtos culturais. Ao longo de sua história, isso foi demonstrado quando traz para si conteúdos sociais e se auto-referencia como emissora cidadã, trabalhando o marketing e o merchandising social em sua programação.

Respondendo ao problema de qual o papel da temática cidadania nas estratégias da Rede Globo, é correto afirmar que a empresa, produtora de conteúdos culturais, aproveita-se do merchandising social como uma forma de conquistar e fidelizar audiência no disputado mercado de mídia televisiva. A Rede Globo, ao exibir conteúdos sociais, demonstra uma imagem pública de emissora socialmente responsável, com uma programação que educa para audiência por meio de programas produzidos em padrões de qualidade técnica e estética de alto nível.

A pesquisa mostrou que as ações de marketing social atuam na promoção de cidadania, incluindo merchandising nestas ações, com temáticas, sobretudo, vinculadas aos direitos sociais, políticos e econômicos. Isto embora esta cidadania, muitas vezes, ocorra somente como uma possibilidade de proposta.

EPTIC – Ainda sobre sua tese, você cria como proposta metodológica a grade transversal. Você pode nos explicar o que a motivou chegar nesta proposta, que parte do materialismo histórico-dialético para alcançar a presença da cidadania na grade da TV?

JLD – O primeiro pensamento foi imaginar um dia ideal de programação. Esse dia ideal de programação deveria contemplar uma amostragem abrangente da programação da TV Globo, ou seja, daquilo que cotidianamente o telespectador comum assistiria. Com a captura dos programas, seria criada uma grade com todos os gêneros que fossem analisados. Essa grade seria denominada de dia ideal, embora não necessariamente esse dia tivesse exatas 24 horas, já que o horário nobre da emissora, com maior índice de audiência, vai das 18h às 23h, tendo programação diferenciada a cada dia, daí ser considerável analisar o conteúdo dos programas que se revezam na grade, como forma de cobrir a programação de modo ampliado, o que confere maior consistência ao campo analítico. Este dia ideal, no entanto, não abarcava o que se pretendia em toda a programação. Então optei por fazer um corte transversal na programação, incluindo todos os tipos de gêneros encontrados na grade de programação da TV aberta do Grupo Globo. Desse modo, é preciso que se tenha em mente que o enfoque analítico volta-se, exatamente, sobre a questão de a cidadania estar, ou não, inserida no contexto da programação e de que modo ela é apresentada e representada, por meio de temas, da seleção ou adequação destes, frente aos diversos gêneros de programas e da relação com as diferentes agendas. Para isso, foram concentradas diferentes fontes de evidências, além de um incremento prévio de proposições teóricas que administraram a excelência na construção e análise de dados.

Partindo desse pensamento é que se elegeu o método materialista histórico-dialético como quadro referencial desta pesquisa, por contemplar a importância da capacidade de conceber o conhecimento a partir de interpretações ativas da realidade, construídas pela experiência social, única para cada indivíduo, que produz o raciocínio lógico, necessário para a interpretação das regras próprias do ambiente pesquisado. Buscou-se nos conteúdos dos programas globais as manchas de cidadania, a fim de estudá-las sob as premissas do materialismo histórico-dialético, confrontando-as com a teoria revisada e os objetivos propostos.

EPTIC – Para finalizar, quais os focos de atuação do COMUM neste momento no âmbito dos estudos da Economia Política da Comunicação e quais os desafios para o grupo a partir de 2015?

JLD – Estamos trabalhando com pesquisas sobre o processo de regionalização da televisão no Piauí, estudando o reposicionamento de mercado destas emissoras familiares e grupos emergentes. Em 2015, vamos começar a estudar a discussão sobre televisão pública ou estatal, que é outro imbróglio que merece o nosso olhar aqui no Piauí. Vamos também começar a trabalhar o volume dois do livro Economia Política do Jornalismo.